Maués, no interior do Amazonas, é conhecida nacionalmente como a cidade do guaraná. A reputação está ligada à presença histórica do fruto na região, aos conhecimentos desenvolvidos pelo povo Sateré-Mawé e à formação de uma cadeia produtiva que reúne agricultores familiares, empresas e instituições de pesquisa.
A importância do guaraná para o município é cultural, econômica e simbólica. O fruto está presente em práticas tradicionais, em produtos consumidos em diferentes partes do país e em iniciativas de pesquisa voltadas ao melhoramento das plantas e à resistência a doenças. Em setembro de 2025, a relação histórica de Maués com o produto foi reconhecida por lei federal, que concedeu ao município o título de Capital Nacional do Guaraná.
Onde fica Maués
Maués está localizada no leste do estado do Amazonas, em uma área marcada por rios, floresta e comunidades rurais. O município integra a região de influência de Parintins e possui extensa área territorial, com atividades econômicas distribuídas entre a sede, comunidades ribeirinhas e áreas de produção agrícola.
De acordo com o IBGE, Maués tinha 61.204 habitantes no Censo 2022. A população é formada por moradores da área urbana, comunidades rurais e grupos indígenas, entre eles os Sateré-Mawé, povo cuja história está diretamente associada ao guaraná.
A presença dos Sateré-Mawé na história do guaraná
O guaraná é uma planta nativa da Amazônia, conhecida cientificamente como Paullinia cupana. Antes de se transformar em ingrediente de refrigerantes, energéticos, xaropes e suplementos, o fruto já era utilizado por povos indígenas da região amazônica.
Entre esses povos estão os Sateré-Mawé, tradicionalmente associados ao cultivo, ao beneficiamento e à difusão do guaraná. Na língua do povo, a planta é conhecida como waranã. O conhecimento indígena inclui a seleção das sementes, o manejo das plantas, a torrefação e a transformação do produto em bastões ou em pó.
O preparo tradicional envolve a secagem e a torrefação das sementes. Depois de transformado em bastão, o guaraná pode ser ralado e misturado à água. Historicamente, o produto foi utilizado como bebida e também associado a efeitos estimulantes, por conter cafeína e outros compostos naturais.
Registros de cronistas e pesquisadores indicam que o guaraná já era comercializado na região amazônica durante o período colonial. A Embrapa registra que o fruto era explorado antes da colonização por diferentes povos indígenas, incluindo grupos do Baixo Amazonas.
O município de Maués e suas mudanças de nome
A formação histórica de Maués ocorreu em meio à expansão das missões, à criação de aldeamentos e às disputas pelo controle do território amazônico. A localidade teve diferentes denominações ao longo do tempo, entre elas Luséa, Vila da Conceição e Maués.
A denominação Luséa aparece associada à formação administrativa do núcleo que deu origem ao município. No século XIX, a localidade passou por mudanças institucionais e territoriais, acompanhando a organização da então província do Amazonas.
O nome Maués está relacionado aos povos indígenas que viviam na região. A grafia e o significado atribuídos ao termo variam conforme a fonte e a interpretação linguística. Por isso, a origem exata da palavra é tratada com cautela em estudos históricos e antropológicos.
Ao longo do século XIX, o município também esteve envolvido nos conflitos políticos e sociais que marcaram a Amazônia. A região foi afetada por disputas locais, pela circulação de comerciantes e pelo processo de consolidação administrativa do Amazonas, elevado à condição de província em 1850.
Como o guaraná se tornou a marca de Maués
O cultivo do guaraná em Maués não surgiu como uma atividade industrial desde o início. Ele foi construído a partir do conhecimento tradicional dos povos indígenas e da adaptação da planta ao cultivo em áreas manejadas pelas comunidades.
Durante o século XX, a produção passou a despertar maior interesse comercial. O guaraná deixou de ser consumido apenas em preparações tradicionais e começou a ser utilizado por empresas de bebidas e pela indústria de alimentos. A expansão do mercado aumentou a demanda por sementes e estimulou a organização de áreas produtivas no Amazonas.
Maués ganhou destaque nesse processo por reunir tradição de cultivo, condições ambientais favoráveis e agricultores com experiência no manejo do guaranazeiro. O município passou a ser reconhecido como um dos principais centros de produção e conhecimento relacionados ao fruto.
A instalação de empreendimentos privados também contribuiu para modificar a economia local. Nas décadas de 1970 e 1980, empresas do setor de bebidas mantiveram áreas de cultivo e estruturas ligadas ao beneficiamento do guaraná na região. Esse movimento aproximou a produção agrícola do mercado nacional de refrigerantes e concentrados.
O papel da Embrapa no cultivo
O desenvolvimento da produção trouxe desafios. Entre os principais problemas enfrentados pelos produtores está a antracnose, doença causada por fungo que pode comprometer folhas, ramos e frutos do guaranazeiro. Em áreas de cultivo contínuo, a incidência da doença pode reduzir a produtividade e elevar os custos de manejo.
A pesquisa agropecuária passou a buscar plantas mais produtivas e resistentes. A Embrapa Amazônia Ocidental mantém um campo experimental em Maués e desenvolveu estudos sobre espaçamento, adubação, manejo, seleção de materiais genéticos e controle de doenças.
Segundo a instituição, os trabalhos de melhoramento genético realizados no Amazonas ajudaram a selecionar clones com características como porte mais adequado, maior produtividade e resistência a problemas fitossanitários. Entre os materiais desenvolvidos estão cultivares como BRS Amazonas e BRS Maués.
A pesquisa também contribuiu para transformar o guaranazeiro, que originalmente apresenta comportamento de trepadeira, em uma planta conduzida como arbusto nos sistemas comerciais. A mudança facilitou o manejo e a colheita em áreas de cultivo.
O nome BRS Maués representa uma das iniciativas que conectam a identidade do município ao avanço tecnológico no campo. A cultivar é apresentada pela Embrapa como uma alternativa voltada à geração de renda, à sustentabilidade da produção e à conservação da sociobiodiversidade.
Da semente ao produto consumido no Brasil
O fruto do guaranazeiro apresenta uma casca que se abre quando amadurece e revela a semente envolvida por uma polpa clara. Após a colheita, as sementes passam por etapas de seleção, lavagem, secagem e torrefação. O resultado pode ser comercializado em grãos, pó, bastões, extratos ou como matéria-prima para bebidas.
O processamento tradicional mantém importância cultural em Maués, enquanto a produção industrial atende a diferentes segmentos do mercado. O guaraná é usado em bebidas gaseificadas, xaropes, preparados alimentícios e produtos associados à energia e à disposição.
A cafeína é um dos componentes mais conhecidos do guaraná. No entanto, o consumo de produtos derivados deve observar a composição e a quantidade indicada pelo fabricante, especialmente em bebidas concentradas e suplementos.
A cadeia produtiva envolve produtores rurais, trabalhadores da colheita, comerciantes, transportadores, unidades de beneficiamento e indústrias. Em comunidades distantes da sede, o transporte fluvial tem papel importante na circulação de pessoas e mercadorias.
Reconhecimento como Capital Nacional do Guaraná
Em 22 de setembro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.216, que conferiu a Maués o título de Capital Nacional do Guaraná. A norma foi publicada no Diário Oficial da União em 23 de setembro de 2025.
O reconhecimento formaliza uma associação que já fazia parte da imagem pública do município. Maués era conhecida como Terra do Guaraná por causa da presença histórica do fruto na economia, na cultura e na identidade local.
O título não transforma o município automaticamente no único produtor brasileiro nem elimina a produção existente em outras regiões. O reconhecimento destaca a importância histórica e cultural de Maués e sua relação específica com a origem e o desenvolvimento do cultivo comercial do guaraná.
Guaraná, identidade e patrimônio cultural
A relação de Maués com o guaraná vai além da agricultura. O fruto aparece em festas, manifestações culturais, narrativas tradicionais e atividades de valorização da identidade regional.
Em 2016, o governo do Amazonas reconheceu o guaraná produzido em Maués, assim como suas lendas, mitos e costumes, como Patrimônio Cultural Material e Imaterial do Estado. A medida reforçou a dimensão cultural da atividade e a importância dos conhecimentos associados ao povo Sateré-Mawé.
Esse reconhecimento também chama atenção para a necessidade de preservar os saberes tradicionais. A história do guaraná não se resume ao crescimento da indústria de bebidas: ela envolve práticas indígenas, relações comunitárias, técnicas agrícolas e formas de transmissão de conhecimento entre gerações.
O significado de Maués para a história do guaraná
A trajetória de Maués ajuda a compreender como um produto amazônico passou de uma preparação tradicional indígena a uma mercadoria conhecida em todo o país. O processo combinou conhecimento ancestral, agricultura familiar, investimentos empresariais e pesquisa científica.
Apesar da projeção nacional, a cadeia do guaraná enfrenta desafios relacionados à produtividade, às doenças, aos custos de produção, ao transporte e à remuneração dos agricultores. A continuidade da atividade depende de tecnologias adequadas à realidade amazônica e de políticas capazes de fortalecer os produtores.
O reconhecimento como Capital Nacional do Guaraná coloca Maués em evidência, mas também reforça a responsabilidade de preservar a cultura, valorizar os agricultores e respeitar o papel dos Sateré-Mawé na história do fruto. Na cidade amazonense, o guaraná permanece como produto agrícola, patrimônio cultural e símbolo de uma relação antiga entre território, conhecimento e identidade.