Em Anamã, no Amazonas, o regime dos rios influencia a ocupação do território, a circulação e a organização dos serviços públicos. A relação ficou evidenciada em 2025, quando o município teve situação de emergência homologada após a elevação dos rios Solimões e Anamã, com registro de danos materiais, ambientais, econômicos e sociais em áreas urbanas e rurais.
Localizado a oeste de Manaus, Anamã integra a Região Geográfica Imediata de Manacapuru e a Região Geográfica Intermediária de Manaus. A formação do município combina a memória dos seringais, a presença de comunidades tradicionais e indígenas e atividades econômicas como agricultura, pesca e extrativismo.
Uma formação ligada aos seringais
O histórico publicado pela Prefeitura de Anamã menciona a presença de fazendeiros na região antes de 1843. A constituição dos primeiros núcleos de moradores é associada à procura por terras férteis e áreas de seringais, em um processo de ocupação relacionado às características naturais do território.
Outra etapa do povoamento é situada por volta de 1936, quando antigos seringueiros vindos do Acre chegaram à região. A exploração da borracha também aparece na memória local por meio da denominação popular Alto Seringal.
Durante a década de 1960, moradores usavam ainda o nome Princesa de Anori. As duas expressões fazem parte da memória histórica do município, mas não correspondem necessariamente a denominações administrativas oficiais.
A emancipação ocorreu em 1981, por meio da Emenda Constitucional estadual nº 12, quando Anamã se desmembrou de Anori. Segundo o histórico municipal, Sebastião Pacheco Teles, então vereador de Anori, participou do processo e venceu as primeiras eleições municipais, realizadas em 1982.
O aniversário oficial é celebrado em 31 de janeiro. A data foi estabelecida pela Lei Municipal nº 298, de 26 de setembro de 2017, e passou a integrar as referências administrativas e coletivas do município.
O significado do nome Anamã
A origem do nome é apresentada pela prefeitura a partir de uma pesquisa de Ivany Jamys Ferreira Régis. O estudo relaciona Anamã ao nheengatu, língua de base tupi historicamente utilizada na Amazônia, e recupera registros do vocabulário de Ermanno Stradelli, publicado em 1928.
Entre os sentidos encontrados estão “espesso”, “desmamado” e uma denominação de marreca. A variedade de significados registrados não permite atribuir ao nome uma tradução única nem afirmar, sem documentação adicional, que a escolha esteja ligada especificamente à vegetação ou a bebidas indígenas.
Território marcado pela presença das águas
Anamã limita-se com Anori ao norte e a oeste, Beruri ao sul e Manacapuru a leste. O município tem clima equatorial, quente e úmido, e o ambiente fluvial participa da organização das comunidades, das atividades produtivas e das formas de deslocamento.
A descrição municipal relaciona 22 comunidades, sem informar o ano de referência dessa contagem. Entre os locais citados estão Arixi, Cuia, Novo Brasil, Mato Grosso e Nossa Senhora de Nazaré.
Também aparecem São José e Eware, identificadas como comunidades Tikuna. Bom Jesus, Nova Esperança e Santa Luzia são relacionadas ao povo Kokama, na Ilha do Camaleão.
A presença dessas comunidades mostra que a história de Anamã não se restringe à sede urbana. Diferentes formas de organização social, conhecimentos e práticas produtivas fazem parte da identidade municipal e da relação do território com os rios.
População e indicadores do município
O Censo 2022 registrou 9.962 habitantes em Anamã, segundo o painel Cidades e Estados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A densidade demográfica era de 4,07 habitantes por quilômetro quadrado, considerando a área territorial de 2.382,521 km².
O mesmo painel apresenta uma população estimada de 9.981 habitantes para 2026. A diferença em relação ao Censo de 2022 é de 19 pessoas, o equivalente a aproximadamente 0,19% quando comparadas a estimativa e a contagem censitária.
O indicador de escolarização de crianças e adolescentes de 6 a 14 anos foi de 97,93% em 2022. O dado se refere à matrícula ou frequência escolar e não mede, por si só, a aprendizagem dos estudantes.
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Anamã é de 0,594, com ano de referência em 2010. Esse resultado está classificado na faixa de baixo desenvolvimento humano. Como o indicador é de 2010, ele não representa necessariamente as condições atuais do município.
O painel do IBGE também informa mortalidade infantil de 11,36 óbitos por mil nascidos vivos em 2025. Para interpretar tendências, esse número precisa ser observado em conjunto com uma série histórica.
O Produto Interno Bruto (PIB) por habitante foi de R$ 15.528,45 em 2023. O indicador representa uma média da produção econômica por pessoa e não corresponde à renda individual dos moradores.
Em 2025, as receitas brutas realizadas somaram R$ 104.407.370,57, enquanto as despesas brutas empenhadas alcançaram R$ 85.950.030,37, conforme os dados apresentados pelo IBGE com base nos anos indicados no painel municipal.
Agricultura, pesca e possibilidades de turismo
A agricultura e a pesca estão entre as principais bases econômicas mencionadas para Anamã. A estrutura municipal inclui a Secretaria de Produção Rural e Abastecimento, que tem atribuições relacionadas à agricultura familiar, à pecuária, à pesca artesanal e ao extrativismo sustentável.
Entre as atividades da secretaria estão o apoio técnico, o acesso a crédito e o incentivo ao associativismo. Essas frentes estão associadas à produção rural e às formas de trabalho desenvolvidas pelas comunidades do município.
O ambiente aquático também reúne possibilidades turísticas. A Amazonastur destaca áreas destinadas a banho e cita os lagos Membeca e Patuá como locais para pesca esportiva.
As informações identificam atrativos naturais, mas não apresentam números de visitantes nem indicam a participação do turismo na economia de Anamã.
Cheias exigem adaptação do cotidiano
A relação com os rios ganha dimensão prática durante os períodos de cheia. Quando o nível das águas sobe, áreas da cidade podem ser inundadas, alterando os deslocamentos e a rotina dos moradores. Reportagens registram o uso de canoas em ruas tomadas pelas águas.
Em 9 de junho de 2025, o Governo do Amazonas homologou situação de emergência em Anamã por meio do Decreto nº 51.871. O documento atribuiu as inundações à elevação dos rios Solimões e Anamã e registrou danos em áreas urbanas e rurais.
O decreto apontou impactos materiais, ambientais, econômicos e sociais. A medida passou a integrar o conjunto de registros administrativos relacionados ao período de cheia daquele ano.
A estrutura municipal da Defesa Civil prevê o monitoramento de áreas de risco, o planejamento preventivo, a assistência às famílias e a atenção às cheias periódicas do Solimões. Essas atribuições relacionam a gestão pública ao comportamento dos rios e à necessidade de manter serviços e medidas de proteção durante a subida das águas.
Identidade construída entre terra e rios
A trajetória de Anamã reúne diferentes momentos de ocupação e organização social. A memória dos seringais, a chegada de trabalhadores vindos do Acre, a emancipação administrativa e a presença de comunidades Tikuna e Kokama fazem parte desse processo.
Ao mesmo tempo, a produção agrícola, a pesca artesanal e o extrativismo permanecem vinculados às características do território. Os rios influenciam não apenas a circulação, mas também as oportunidades econômicas e as dificuldades enfrentadas durante as cheias.
Com uma população de 9.962 habitantes no Censo 2022 e baixa densidade demográfica, Anamã distribui sua vida social para além da sede. A organização das comunidades e a continuidade dos serviços dependem de um território em que a paisagem fluvial ocupa papel central.




