segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Esportes

Esportes adaptados no Amazonas ampliam inclusão, autonomia e oportunidades para pessoas com deficiência

Os esportes adaptados no Amazonas vêm ganhando espaço por meio de programas públicos, competições e projetos voltados à iniciação esportiva e ao alto rendimento. A expansão do paradesporto amplia a autonomia e a participação social de pessoas com deficiência, mas depende de acessibilidade, profissionais capacitados e políticas permanentes.

Os esportes adaptados no Amazonas têm ampliado a participação de pessoas com deficiência em atividades de lazer, iniciação esportiva e competições de alto rendimento. A prática envolve modalidades ajustadas às características dos atletas e também pode ocorrer em ambientes inclusivos, com pessoas com e sem deficiência participando juntas.

Mais do que formar competidores, o paradesporto contribui para a autonomia, a convivência social, o desenvolvimento físico e a mudança da percepção sobre a deficiência. No estado, esse movimento reúne ações governamentais, associações, escolas, clubes e iniciativas do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

A expansão, porém, não elimina obstáculos. A oferta de atividades ainda precisa alcançar mais municípios, a infraestrutura deve ser acessível e o atendimento depende de profissionais preparados para trabalhar com diferentes deficiências. A continuidade das políticas também é essencial para evitar que os projetos se limitem a eventos isolados.

Esporte adaptado, esporte inclusivo e paradesporto

Os termos relacionados ao esporte para pessoas com deficiência nem sempre significam a mesma coisa. O esporte adaptado é aquele que passa por mudanças em regras, equipamentos, espaços ou formas de orientação para permitir a participação de atletas com diferentes características funcionais.

Já o esporte inclusivo busca reunir pessoas com e sem deficiência em uma mesma atividade, priorizando a convivência e a igualdade de oportunidades. O paradesporto, por sua vez, engloba práticas esportivas organizadas para pessoas com deficiência, desde a iniciação até o alto rendimento, com regras e classificações próprias quando necessário.

As adaptações podem incluir o uso de cadeiras esportivas, bolas com guizos, sinalização sonora, apoio de guias, alterações no tamanho da quadra ou mudanças na forma de execução dos movimentos. Em todas as situações, a proposta é reduzir barreiras sem diminuir o desafio esportivo.

O Ministério do Esporte considera o paradesporto uma ferramenta de inclusão social e prevê ações voltadas a diferentes faixas etárias e tipos de deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão também assegura à pessoa com deficiência o direito ao esporte em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. (gov.br)

O cenário amazonense

No Amazonas, a Política Estadual do Desporto, instituída pela Lei nº 6.516, de 16 de outubro de 2023, inclui entre seus objetivos o estímulo às práticas esportivas profissionais e não profissionais. A legislação também reconhece o desporto social como aquele voltado à inclusão social e prevê a articulação do esporte com ações de saúde e qualidade de vida. (legisla.imprensaoficial.am.gov.br)

O estado também criou, em março de 2025, a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SEPcD), órgão responsável por formular e implementar políticas públicas relacionadas à garantia de direitos e à valorização dessa população. A existência de uma estrutura específica pode favorecer a integração entre esporte, saúde, educação, transporte e acessibilidade. (sepcd.am.gov.br)

Na capital, a Lei Municipal nº 3.276, de 1º de março de 2024, estabeleceu a obrigatoriedade de categorias adaptadas para pessoas com deficiência em competições esportivas oficiais públicas e particulares realizadas em Manaus. A medida amplia a responsabilidade dos organizadores e cria uma referência para que os eventos deixem de tratar a participação de atletas com deficiência como exceção. (sapl.cmm.am.gov.br)

Também há propostas em tramitação na Assembleia Legislativa do Amazonas para ampliar a presença do esporte adaptado nas escolas públicas e criar programas estaduais de incentivo ao paradesporto. Como projetos de lei ainda dependem das etapas legislativas e, em alguns casos, de regulamentação, seus efeitos não devem ser confundidos com políticas já consolidadas.

Programas e oportunidades de iniciação

O acesso ao esporte costuma começar em atividades de base, escolas, associações e projetos sociais. No âmbito federal, o Programa Semear + Paradesporto tem como objetivo democratizar o acesso de crianças, adolescentes e jovens com deficiência à prática esportiva educacional e de participação. A iniciativa prevê ambientes de iniciação no contraturno escolar e pode ser acessada por órgãos públicos, universidades e institutos de ensino por meio de editais ou outras formas previstas pelo Ministério do Esporte. (gov.br)

No Amazonas, programas estaduais de esporte e lazer também alcançam comunidades da capital e do interior. O relatório de atividades do governo estadual informa que o Programa Esporte e Lazer na Capital e Interior (Pelci) foi criado para fomentar o esporte de base e promover inclusão social, com núcleos em Manaus e polos em municípios do interior.

Os dados divulgados pelo governo indicam que o Pelci registrou mais de 244 mil atendimentos em nove meses de 2025. O mesmo relatório aponta que o projeto Formando Campeões ultrapassou mil atletas atendidos e acumulou mais de 117 mil aulas em dois anos. Esses números se referem aos programas como um todo e não representam, necessariamente, o total de pessoas com deficiência atendidas. (amazonas.am.gov.br)

Essa distinção é importante porque a inclusão precisa ser medida não apenas pelo número geral de atendimentos, mas também pela quantidade de participantes com deficiência, pelas modalidades oferecidas, pela frequência das atividades, pela acessibilidade dos espaços e pela permanência dos alunos nos projetos.

Maria de Fátima e a projeção nacional

Uma das principais referências do paradesporto amazonense é a halterofilista Maria de Fátima Castro, natural de Tefé. A atleta, que tem má-formação congênita nas pernas, conheceu o halterofilismo em 2017 e passou a se dedicar à modalidade a partir de 2019, segundo o perfil divulgado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

Maria de Fátima conquistou a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024, na categoria até 67 quilos. O resultado foi reconhecido pelo governo estadual como a primeira medalha paralímpica da história do Amazonas. Antes disso, ela já havia obtido resultados em competições nacionais e internacionais, incluindo o bronze nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago, em 2023. (cpb.org.br)

Em 2026, a atleta voltou a competir em Manaus durante uma etapa do Meeting Paralímpico Loterias Caixa. O evento reuniu provas de atletismo e halterofilismo e contou com participantes de diferentes níveis, incluindo jovens que buscavam marcas para competições escolares e universitárias. A presença de uma competição nacional na capital ajuda a aproximar o alto rendimento dos atletas em formação. (cpb.org.br)

No mesmo ano, Maria de Fátima participou de atividades do Camping Escolar Regional Paralímpico realizado em Manaus. A programação reuniu 80 jovens atletas de atletismo e natação de estados da Região Norte, com treinamento, testes físicos e acompanhamento de equipe multidisciplinar. A iniciativa é voltada à identificação e ao desenvolvimento de talentos. (cpb.org.br)

O que o esporte muda na vida das pessoas

Para além dos resultados, a prática esportiva pode ampliar a autonomia e a confiança de pessoas com deficiência. O treinamento regular favorece o desenvolvimento de capacidades físicas, a percepção do próprio corpo e a construção de vínculos sociais. Em crianças e adolescentes, também pode contribuir para a permanência em atividades coletivas e para a participação em ambientes escolares.

O esporte ainda ajuda a deslocar o foco da deficiência como limitação individual para as barreiras existentes no ambiente. Uma quadra sem acessibilidade, a ausência de transporte adequado, a falta de equipamentos ou a comunicação inacessível podem impedir a participação tanto quanto uma condição física, sensorial ou intelectual.

Por isso, a inclusão esportiva não depende apenas de abrir vagas. É necessário garantir condições para que o atleta chegue ao local, compreenda as orientações, utilize equipamentos adequados e participe com segurança. No caso de pessoas surdas, por exemplo, a comunicação pode exigir intérpretes de Libras. Para pessoas com deficiência visual, podem ser necessários recursos sonoros e guias. Para atletas com deficiência física, a estrutura deve permitir circulação e uso adequado dos espaços.

Desafios para a expansão no interior

A dimensão territorial do Amazonas torna a descentralização um dos principais desafios. A distância entre municípios, as limitações de transporte e a concentração de equipamentos esportivos em Manaus dificultam a criação de uma rede contínua de atendimento no interior.

Levar o paradesporto para outras cidades exige mais do que realizar competições eventuais. É preciso formar professores e treinadores, garantir equipamentos, estabelecer rotinas de treinamento e criar mecanismos de identificação de novos participantes. A articulação com escolas, unidades de saúde, associações comunitárias e universidades pode ajudar a encontrar atletas e manter o atendimento próximo das famílias.

Outro ponto é a produção de informações. Sem dados detalhados sobre número de praticantes, modalidades, faixa etária, tipo de deficiência e distribuição geográfica, fica mais difícil planejar investimentos e avaliar resultados. Relatórios com indicadores específicos podem dar maior transparência às políticas públicas e mostrar onde existem vazios de atendimento.

Inclusão precisa ser política permanente

A experiência do Amazonas mostra que o esporte adaptado pode funcionar como porta de entrada para a cidadania, a saúde e a convivência. A medalha de Maria de Fátima evidencia o potencial do estado no alto rendimento, enquanto projetos escolares e comunitários ajudam a formar a base que sustenta novas trajetórias.

Para que esse avanço alcance mais pessoas, as ações precisam combinar iniciação, participação recreativa e competição. Também é necessário assegurar acessibilidade, financiamento regular, profissionais capacitados, equipamentos específicos e oportunidades para atletas de diferentes níveis de desempenho.

O desafio é transformar conquistas individuais e eventos de destaque em uma rede estável de oportunidades. Quando a pessoa com deficiência encontra condições para praticar esporte perto de casa, com segurança e continuidade, o resultado não se resume ao pódio: envolve autonomia, participação social e reconhecimento de direitos.

Informações sobre políticas federais podem ser consultadas na Secretaria Nacional de Paradesporto e dados sobre competições e atletas estão disponíveis no Comitê Paralímpico Brasileiro.