domingo, 11 de outubro de 2026
Cidades

Fumaça em Manaus exige cruzamento de dados além da contagem de focos

Dados da NEX indicam redução de focos de calor no Amazonas em 2026, puxada por municípios do sul, enquanto cidades do entorno de Manaus e do setor leste registraram aumento. A análise ressalta que a origem da fumaça depende do cruzamento entre detecções, ventos, imagens de plumas e condições atmosféricas.
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A análise da fumaça em Manaus não pode ser feita apenas pela soma estadual de focos de calor. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas mostra que o Amazonas teve queda de 26,9% nas detecções entre agosto e setembro de 2026, na comparação com os mesmos meses de 2023. Ao mesmo tempo, municípios próximos da capital e localidades do setor leste registraram crescimento.

O contraste entre a redução no total do estado e o aumento em áreas específicas ajuda a explicar por que episódios de fumaça podem ocorrer mesmo quando o número geral de detecções diminui. Para determinar a contribuição de cada município, porém, é necessário combinar os registros de queimadas com dados de vento, imagens das plumas e informações sobre a circulação atmosférica.

Queda no Amazonas foi concentrada em parte dos municípios

O estudo da NEX utilizou dados do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram contabilizados 65.610 focos de calor no Amazonas em agosto e setembro de 2026, contra 89.758 no mesmo período de 2023.

A diferença representa 24.148 detecções a menos no bimestre. O resultado estadual, entretanto, não se repetiu em todos os municípios. Dos 62 municípios amazonenses, 16 apresentaram crescimento no número de focos, entre eles Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE que abrange uma área mais ampla que o entorno imediato da capital, as detecções passaram de 18.231 para 18.980, alta de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, o total subiu de 10.290 para 10.686, crescimento de 3,8%.

Municípios próximos tiveram altas expressivas

Manacapuru apresentou o maior aumento absoluto do levantamento. O município passou de 1.230 focos em agosto e setembro de 2023 para 2.730 no mesmo período de 2026. Foram 1.500 detecções adicionais, alta de 122%.

Iranduba teve a maior variação percentual entre os municípios destacados, de 192 para 657 focos, crescimento de 242,2%. Caapiranga passou de 946 para 2.248 detecções, aumento de 137,6%.

Também houve crescimento em Itacoatiara, de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%; em Careiro, de 1.236 para 1.442, aumento de 16,7%; em Manaquiri, de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%; e em Rio Preto da Eva, de 241 para 327, alta de 35,7%.

Nova Olinda do Norte registrou aumento de 992 para 1.282 detecções, ou 29,2%. Borba passou de 1.550 para 1.771 focos, crescimento de 14,3%. Urucurituba teve alta de 457 para 1.192, equivalente a 160,8%.

A própria Manaus também apresentou aumento. As detecções passaram de 490 para 557, alta de 13,7%. Por isso, a avaliação sobre a fumaça precisa considerar tanto as áreas do entorno quanto possíveis emissões dentro do território da capital.

Mapas ajudam a avaliar possibilidades, mas têm limitações

Além dos dados de queimadas, a análise considerou imagens do Windy para observar a circulação atmosférica. No corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus, os traços de vento aparecem aproximadamente alinhados de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Essa orientação é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à região de Manaus. Se as partículas estiverem se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça de queimadas localizadas nesse corredor poderá ser transportada até a capital.

Itacoatiara ganha relevância nessa avaliação por estar a leste de Manaus e ter registrado 252 focos a mais no bimestre de 2026. O crescimento foi de 14,7%. Urucurituba e Boa Vista do Ramos também apresentaram aumento. No segundo município, as detecções passaram de 690 para 1.022, alta de 48,1%.

Os mapas, contudo, não confirmam que a fumaça produzida nesses locais tenha chegado a Manaus. As imagens estáticas não permitem estabelecer com segurança o sentido do deslocamento das partículas nem determinar a origem de uma pluma específica.

A primeira imagem analisada estava na camada de temperatura, enquanto a segunda apresentava a acumulação de vento. As cores não representam concentração de fumaça ou qualidade do ar. O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados e não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento na capital.

Também não havia indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão. Por isso, o fluxo representado nas capturas não pode ser associado, por si só, às condições atmosféricas vigentes durante os incêndios registrados em agosto e setembro.

Setor sudeste depende de outra configuração atmosférica

A área entre Borba e Itacoatiara aparece nos mapas com traços de orientação diagonal. Caso o deslocamento ocorra do sudeste para o noroeste, o fluxo poderá favorecer a aproximação de ar vindo de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba e Nova Olinda do Norte tiveram aumento nas detecções durante o período analisado. Borba passou de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte subiu de 992 para 1.282.

Autazes e Careiro da Várzea, também considerados na análise geográfica do setor sudeste, registraram queda. Autazes passou de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea caiu de 1.603 para 1.428, redução de 10,9%.

A diminuição não elimina a necessidade de acompanhar esses municípios. Ambos mantiveram quantidade significativa de registros, e a possibilidade de transporte depende das condições atmosféricas no momento das queimadas. Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal em 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Áreas a oeste exigem análise de ventos diferentes

Os aumentos em Manacapuru, Iranduba e Caapiranga também precisam ser interpretados conforme a posição geográfica dessas cidades. Elas estão a oeste e sudoeste de Manaus.

Para que a fumaça dessas áreas alcance a capital, é necessário que a circulação atmosférica venha desses setores ou que as trajetórias do ar conduzam as partículas até a cidade. O alinhamento observado no corredor leste não explica sozinho uma possível contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

Essa diferença separa duas etapas da análise: os dados mostram onde os focos cresceram, enquanto os mapas ajudam a verificar em quais condições a fumaça poderia se deslocar até Manaus.

Histórico aponta predominância de ventos de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção indica de onde o vento vem. Assim, um vento de leste sopra do leste para oeste. Esse padrão histórico torna plausível o acompanhamento de municípios situados a leste e nordeste da capital como possíveis áreas de contribuição.

O comportamento dos ventos, porém, não é constante. Chuvas, variações na circulação regional, brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos da superfície e aqueles em níveis mais elevados podem alterar o fluxo atmosférico.

Queda estadual foi influenciada por municípios do sul

A redução do total do Amazonas foi puxada principalmente pelo recuo em municípios que tinham grande volume de detecções em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, queda de 61%. Humaitá caiu de 5.314 para 1.530, redução de 71,2%.

Canutama teve recuo de 3.644 para 1.013 detecções, baixa de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, redução de 58,5%. Também houve queda em Novo Aripuanã, de 23,7%; Manicoré, de 46,6%; e Tapauá, de 68,9%.

Apuí seguiu na direção oposta e apresentou o maior total estadual no bimestre de 2026. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%.

Comparação é restrita a agosto e setembro

A comparação da NEX considera apenas agosto e setembro de 2023 e de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a análise dos trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos. Com isso, o total de agosto a outubro chegou a 121.540 detecções, e o mês respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre.

O levantamento apresenta 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação, entretanto, mede a variação das detecções e não determina isoladamente a participação de fatores climáticos ou de medidas de prevenção e combate.

Focos de calor não equivalem a incêndios individuais

A metodologia utiliza a soma de detecções feitas por satélite e organizadas por município no Painel do Fogo do SIPAM. Os dados territoriais do IBGE foram usados para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. A mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

Assim, o levantamento sustenta a hipótese de que o aumento de focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual.

A identificação dos municípios que contribuíram para cada episódio depende do cruzamento entre localização e horário das detecções, imagens das plumas de fumaça e trajetórias do ar em diferentes altitudes. Sem essa combinação, os dados indicam áreas para acompanhamento, mas não permitem atribuir a origem da fumaça a um município específico.