segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Esportes

Modalidades esportivas pouco conhecidas praticadas no Amazonas vão além do futebol

O Amazonas reúne modalidades esportivas pouco conhecidas do grande público, como zarabatana, peconha, arremesso de lança, rugby, slackline, canoagem e esportes de aventura. Muitas dessas práticas estão ligadas à cultura indígena, aos rios e à vida urbana de Manaus.

Quando se fala em esporte no Amazonas, futebol, futsal, vôlei, atletismo e jiu-jítsu costumam aparecer entre as modalidades mais lembradas. O estado, no entanto, mantém uma prática esportiva mais ampla, que inclui jogos tradicionais indígenas, esportes aquáticos, atividades de aventura e modalidades coletivas ainda restritas a grupos específicos.

Parte dessas práticas está diretamente ligada ao ambiente amazônico. Rios, igarapés, áreas de floresta e espaços urbanos de Manaus influenciam tanto o tipo de modalidade praticada quanto a maneira como ela é ensinada e disputada. Em outros casos, a atividade chegou ao estado por meio de escolas, universidades, clubes, projetos sociais ou comunidades de imigrantes.

Também é importante diferenciar uma modalidade esportiva institucionalizada de uma prática cultural transformada em competição. Em eventos indígenas, por exemplo, atividades como peconha, zarabatana e arremesso de lança são adaptadas para disputas com regras próprias, sem perder a relação com os conhecimentos tradicionais.

Jogos indígenas preservam práticas tradicionais

Entre as modalidades menos conhecidas do Amazonas estão aquelas disputadas em jogos interculturais indígenas e competições escolares realizadas em comunidades. Registros da Prefeitura de Manaus mostram a presença de arco e flecha, zarabatana, arremesso de lança, peconha, canoagem, mergulho, travessia de igarapé e cabo de guerra nesses eventos.

Os jogos reúnem participantes de diferentes comunidades e têm objetivos que vão além da competição. As atividades servem para promover a convivência entre povos, fortalecer a identidade cultural e transmitir conhecimentos relacionados à floresta, aos rios e às técnicas de sobrevivência. Em uma edição realizada na Comunidade do Livramento, em Manaus, a programação reuniu modalidades tradicionais e esportes convencionais, como futebol, vôlei, natação e corrida. (manaus.am.gov.br)

Peconha

A peconha é uma técnica usada para subir em árvores, especialmente em atividades de coleta. Nos jogos, ela é adaptada para uma prova de velocidade: vence o participante que consegue alcançar determinada altura ou concluir a escalada em menor tempo, conforme as regras do evento.

A prática exige força nas pernas, equilíbrio e domínio do movimento de subida. Como envolve altura e pode oferecer riscos, sua realização depende de organização, supervisão e escolha adequada do local. Nos Jogos Interculturais Indígenas de Manaus, a modalidade foi apresentada como uma atividade associada ao cotidiano e ao conhecimento tradicional de diferentes povos. (manaus.am.gov.br)

Zarabatana

A zarabatana é uma arma artesanal tradicional utilizada por povos indígenas, principalmente para caça de pequenos animais e aves. Em competições, ela aparece como uma prova de precisão, na qual o participante precisa atingir um alvo a determinada distância.

Os jogos organizados em Manaus registraram disputas de zarabatana com alvos posicionados a dezenas de metros dos competidores. A atividade é convertida em modalidade esportiva por meio de regras e alvos definidos, mas continua relacionada a conhecimentos sobre fabricação, manejo e uso do instrumento. Por envolver projéteis, a segurança dos participantes e do público deve ser prioridade em qualquer evento. (manaus.am.gov.br)

Arremesso de lança e arco e flecha

O arremesso de lança é outra prática tradicional incorporada a jogos indígenas no Amazonas. A prova pode avaliar a distância alcançada pelo lançamento e a habilidade do participante no manejo do instrumento. Em eventos interculturais, os materiais nem sempre são padronizados, já que cada grupo pode utilizar objetos com características próprias.

O arco e flecha também aparece em disputas de precisão. Embora tenha relação com modalidades esportivas reconhecidas internacionalmente, o arco e flecha praticado em comunidades indígenas possui contexto cultural específico, com técnicas e materiais que podem variar entre os povos. Em 2013, jogos realizados no Rio Cuieiras chegaram a reunir participantes de cinco comunidades em provas de arco e flecha, canoagem, peconha, arremesso de lança e travessia de igarapé. (manaus.am.gov.br)

Canoagem e esportes ligados aos rios

A canoagem ocupa uma posição particular no Amazonas porque a canoa não é apenas um equipamento esportivo. Em muitas comunidades, ela também é meio de transporte, instrumento de trabalho e parte da rotina familiar. Por isso, a modalidade pode assumir formatos diferentes conforme a região, o tipo de embarcação e o objetivo da prova.

Nos jogos indígenas, as competições de canoagem são organizadas a partir das habilidades de remada, equilíbrio e deslocamento na água. O conhecimento do rio e a experiência com a embarcação têm peso importante no desempenho. A prática pode ser encontrada tanto em eventos tradicionais quanto em atividades esportivas e turísticas realizadas em rios e áreas próximas a Manaus.

A relação entre esporte e ambiente fluvial também aparece em competições de natação em águas abertas e em eventos de aventura. No Manaus Adventure 2024, a programação incluiu natação, corrida com obstáculos, tiro com arco, arvorismo, rapel e slackline. A iniciativa mostrou como os rios e a paisagem amazônica podem ser incorporados a provas esportivas e de lazer. (manaus.am.gov.br)

Rugby busca espaço entre os esportes coletivos

O rugby é uma modalidade praticada no Amazonas, mas ainda tem visibilidade menor que futebol, futsal e vôlei. A história do esporte no estado começou a se organizar a partir de grupos formados em Manaus, incluindo estudantes e praticantes ligados à Universidade Federal do Amazonas.

Relatos sobre a modalidade indicam que os primeiros grupos surgiram na década de 1990 e que, posteriormente, novas equipes apareceram na capital e em Parintins. A formação de times, a realização de torneios e a tentativa de estruturar uma federação demonstram a existência de uma comunidade dedicada ao esporte, ainda que com limitações de infraestrutura, divulgação e apoio.

O rugby exige contato físico, velocidade, resistência e entendimento coletivo. No Amazonas, os praticantes enfrentam desafios comuns a modalidades de menor alcance, como dificuldade para encontrar campos adequados, custos de equipamentos e menor presença na mídia. Mesmo assim, a modalidade permanece como alternativa para quem procura um esporte coletivo diferente dos mais tradicionais. (ge.globo.com)

Futebol americano também tem tradição local

O futebol americano ganhou espaço em Manaus por meio de equipes, torneios e eventos realizados ao longo dos anos. A modalidade chegou a reunir público expressivo em partidas e finais, especialmente quando os jogos foram realizados em estruturas de grande porte.

Embora tenha regras complexas e exija equipamentos específicos, o esporte pode ser praticado em formatos adaptados, como o flag football, que reduz o contato físico e facilita a iniciação. A presença de equipes e campeonatos locais mostra que o futebol americano encontrou no Amazonas um público interessado, mesmo sem alcançar a mesma popularidade do futebol convencional.

O desenvolvimento da modalidade depende de campos, materiais de proteção, formação de árbitros e calendário regular. Esses fatores ajudam a explicar por que esportes coletivos menos conhecidos costumam alternar períodos de crescimento e retração no estado.

Slackline, skate e BMX ocupam espaços urbanos

Entre as modalidades de equilíbrio e aventura praticadas em Manaus está o slackline. O esporte consiste em caminhar ou executar movimentos sobre uma fita tensionada entre dois pontos. Uma de suas variações, o trickline, permite saltos e manobras, exigindo controle corporal, força e preparação física.

Em 2014, um atleta amazonense recebeu apoio da Prefeitura de Manaus para participar de uma competição nacional de slackline. Na ocasião, o praticante treinava em espaços públicos da capital e descrevia a modalidade como uma atividade ainda com poucos adeptos. O registro mostra que o esporte já contava com praticantes locais e buscava participar do circuito nacional. (manaus.am.gov.br)

O slackline também aparece associado a eventos de cultura urbana, ao lado de skate e BMX. Em programação realizada em Manaus, pistas e áreas destinadas a essas modalidades foram instaladas para aproximar o público de esportes que combinam equilíbrio, velocidade, coordenação e manobras.

O crescimento dessas práticas depende da existência de pistas, equipamentos seguros e espaços públicos adequados. Sem essa estrutura, a atividade tende a ficar concentrada em grupos independentes e encontros ocasionais.

Esportes de aventura aproveitam características da região

Rapel, arvorismo, tiro com arco, natação em águas abertas e corridas com obstáculos são exemplos de modalidades que aproveitam as características naturais do Amazonas. Algumas aparecem em eventos específicos, enquanto outras estão ligadas ao turismo de aventura e a projetos de lazer.

Essas práticas exigem cuidados adicionais. Correntes de rios, condições climáticas, altura, terrenos irregulares e distância de áreas urbanas aumentam a necessidade de planejamento. Equipamentos adequados, profissionais capacitados, avaliação das condições ambientais e atendimento de emergência são elementos essenciais para reduzir riscos.

O potencial do estado para esportes de aventura não significa que todas as modalidades tenham calendário permanente ou ampla oferta para o público. Muitas dependem de eventos pontuais, empresas especializadas, associações ou projetos municipais. Por isso, a existência de uma competição ou demonstração não deve ser confundida com uma estrutura esportiva consolidada.

Programas públicos ampliam a oferta de modalidades

Projetos de iniciação esportiva ajudam a levar modalidades diferentes para crianças, adolescentes e adultos. O Programa Esporte e Lazer na Capital e Interior, do Governo do Amazonas, foi criado com o objetivo de ampliar o acesso ao esporte e promover inclusão social. Relatório oficial informa que o programa alcançou núcleos na capital e no interior e, em 2025, incluiu o kart entre as modalidades ofertadas.

O mesmo relatório registra iniciativas de apoio a atletas e projetos de base, mas a maior parte das ações divulgadas está concentrada em modalidades de maior presença nas escolas e nos clubes. A inclusão de esportes menos conhecidos depende de profissionais, equipamentos, locais apropriados e continuidade dos projetos. (amazonas.am.gov.br)

Nos municípios do interior, os jogos escolares e indígenas cumprem papel importante na diversificação esportiva. Em Manaquiri, por exemplo, uma edição dos Jogos Escolares dos Povos Indígenas incluiu arco e flecha, zarabatana, cabo de força, corrida com tora e arremesso de ouriço, além do futebol. Em Barreirinha, seletivas escolares realizadas em área indígena também passaram a integrar estudantes ao calendário dos Jogos Escolares do Amazonas. (manaquiri.am.gov.br)

Diversidade esportiva ainda enfrenta obstáculos

A presença de modalidades pouco conhecidas no Amazonas não significa que todas tenham o mesmo nível de organização. Algumas contam com competições escolares e comunitárias; outras dependem de clubes, associações ou grupos independentes. Também há práticas que aparecem principalmente em eventos culturais e não possuem federação, ranking ou calendário regular.

Entre os principais desafios estão a falta de espaços específicos, os custos de transporte entre municípios, a dificuldade de acesso a equipamentos e a pouca cobertura jornalística. No caso dos esportes indígenas, existe ainda a necessidade de respeitar os conhecimentos tradicionais e evitar que as práticas sejam apresentadas apenas como curiosidades.

Mesmo com essas limitações, a variedade de modalidades revela que o esporte amazonense não se resume às grandes competições de futebol. A combinação entre cultura indígena, rios, floresta, vida urbana e projetos de iniciação cria um cenário próprio, no qual práticas tradicionais e esportes contemporâneos convivem em diferentes níveis de organização.