segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Nhamundá: histórias e paisagens do município no Amazonas

Nhamundá, no Baixo Amazonas, construiu sua identidade entre o rio, as comunidades ribeirinhas e as narrativas indígenas. Conheça a história, as paisagens e as tradições do município amazonense.

Nhamundá é um município do Baixo Amazonas cuja história está diretamente ligada às águas. Localizada às margens do rio que leva o mesmo nome, a cidade mantém uma relação cotidiana com a navegação, a pesca, as comunidades rurais e os ciclos de cheia e vazante dos rios.

Conhecida também como Ilha das Icamiabas ou Ilha Bela da Amazônia, Nhamundá combina memória indígena, formação ribeirinha e paisagens marcadas por praias de água doce, ilhas, lagos, áreas de floresta e trechos de rio. O município fica na divisa entre o Amazonas e o Pará e, segundo a base de municípios do IBGE, integra o conjunto de cidades amazonenses situadas na região Norte do país.

Mais do que um destino associado à natureza, Nhamundá é um território onde relatos ancestrais, festas populares, religiosidade e modos de vida amazônicos continuam presentes na identidade da população.

Uma história marcada por povos indígenas

As origens de Nhamundá estão relacionadas à presença de diferentes povos indígenas que ocupavam a região antes da consolidação da colonização europeia. A história divulgada pela Prefeitura de Nhamundá menciona grupos como tcháwhiyána, hixkaryana, sákáka, kamáeyana, chiriwiyána, kumuyána, wari condurizes e jamundás.

Entre essas referências aparece a figura de Jamundá, apresentado como tuxaua da tribo Wabuy. De acordo com a narrativa municipal, ele teria conduzido seu povo para as cabeceiras do rio em reação à exploração e aos maus-tratos praticados por colonizadores. O curso d’água teria recebido o nome em sua homenagem, origem associada também ao nome do município.

Como ocorre em diferentes localidades amazônicas, parte dessa memória é transmitida por relatos orais, documentos históricos e tradições comunitárias. Por isso, as narrativas sobre a origem do nome e a formação do território devem ser compreendidas dentro da combinação entre história registrada, memória indígena e tradição local.

Da antiga vila ao município autônomo

A trajetória administrativa de Nhamundá passou por diferentes etapas. Segundo o histórico publicado pelo município, a antiga povoação foi elevada à categoria de vila em 1758. Já no início do século XX, em 1911, a localidade apareceu na divisão administrativa como parte do município de Parintins.

Posteriormente, passou a ser reconhecida como distrito de Jamundá, condição que foi extinta em 1933. O desmembramento de Parintins ocorreu em dezembro de 1955, quando a localidade se tornou município autônomo de Nhamundá.

A instalação oficial da cidade é atribuída a 31 de janeiro de 1956. Nessa data, o tenente Pedro Macedo de Albuquerque teria sido nomeado primeiro prefeito pelo então governador do Amazonas, Plínio Ramos Coelho. O aniversário do município é celebrado anualmente em 31 de janeiro.

Essa formação administrativa ajuda a explicar a presença de diferentes camadas históricas na cidade: a ocupação indígena anterior à colonização, a organização territorial vinculada aos rios e às vilas e, mais tarde, a criação de uma estrutura municipal própria.

O rio Nhamundá e a geografia da fronteira

O rio Nhamundá ocupa posição central na paisagem e na vida econômica e social do município. Além de servir como via de deslocamento, o curso d’água está associado à pesca, ao abastecimento, às atividades comunitárias e à própria identificação territorial da cidade.

O rio também funciona como referência natural na divisa entre o Amazonas e o Pará. Essa localização faz de Nhamundá um ponto de conexão entre municípios e comunidades que mantêm relações comerciais, familiares e culturais por meio das rotas fluviais.

Na região, a variação do nível dos rios transforma continuamente a paisagem. Durante o período de vazante, surgem praias e bancos de areia que passam a ser utilizados para lazer e festivais. Na cheia, áreas antes acessíveis por terra podem ficar submersas, e a navegação se torna ainda mais importante para a circulação entre comunidades.

De acordo com informações da prefeitura, o território municipal possui cerca de 14,1 mil quilômetros quadrados e reúne a sede urbana e dezenas de comunidades rurais. Os números populacionais variam conforme o ano e a metodologia utilizada; por isso, os dados mais recentes devem ser consultados diretamente no IBGE.

Praias, ilhas e áreas de floresta

As paisagens de Nhamundá são formadas por uma combinação de rios, praias, ilhas, lagos e áreas de floresta. A sede municipal, instalada em uma ilha, é cercada por ambientes de água doce que ganham diferentes contornos conforme o regime hidrológico.

A Praia da Liberdade é um dos espaços mais conhecidos para atividades de lazer e recebe festivais de verão. O local representa um tipo de paisagem comum em cidades amazônicas: durante a seca dos rios, extensas faixas de areia se tornam áreas de convivência, banho e realização de eventos.

Outras referências naturais citadas pelo município são a Serra do Espelho da Lua e a Cachoeira da Fumaça, localizada em área indígena. O acesso a esses pontos depende das condições de navegação, da época do ano e das orientações das comunidades e autoridades responsáveis.

A diversidade dos ambientes também aparece no Complexo de Lagos do Macuricanã, associado à Área de Proteção Ambiental Nhamundá. A região é reconhecida pelo potencial pesqueiro e pela presença de diferentes espécies de peixes, além de cumprir funções ambientais importantes para a manutenção dos ciclos naturais.

Icamiabas: entre a memória indígena e a lenda amazônica

Uma das narrativas mais conhecidas relacionadas a Nhamundá é a das Icamiabas, mulheres guerreiras que fazem parte do imaginário amazônico. A história ganhou projeção a partir dos relatos da expedição de Francisco de Orellana pelo rio Amazonas, no século XVI.

O escrivão Gaspar de Carvajal registrou a presença de mulheres guerreiras durante a viagem. Os relatos europeus compararam essas mulheres às Amazonas da mitologia grega. Essa associação é frequentemente relacionada à origem do nome do rio Amazonas e, posteriormente, do estado do Amazonas.

Na tradição local, as Icamiabas são apresentadas como mulheres habilidosas no uso do arco e da flecha, organizadas em uma comunidade própria e associadas à força e à autonomia. A narrativa também está ligada ao muiraquitã, objeto geralmente representado como uma pedra ou amuleto verde com formas de animais, especialmente a rã.

O muiraquitã ocupa lugar importante no imaginário indígena da Amazônia. As versões tradicionais descrevem o objeto como símbolo de fertilidade, proteção e vínculo. Embora a história das Icamiabas reúna elementos lendários e relatos coloniais, ela permanece como referência cultural para a identidade de Nhamundá e para a compreensão de como a região foi representada ao longo do tempo.

Pesca esportiva e tradições comunitárias

A pesca é uma das atividades mais associadas à vida de Nhamundá. Além de integrar a alimentação e a economia de muitas famílias, ela também se tornou uma atração turística. A prefeitura aponta a pesca esportiva como uma das principais atividades voltadas aos visitantes.

O tucunaré ocupa posição de destaque nesse cenário. A Festa da Pesca do Tucunaré reúne programação cultural e competições esportivas, incluindo disputas relacionadas à captura do peixe, corridas de rabetas e outras atividades. A realização do evento está associada ao calendário de festividades do município e atrai participantes de diferentes partes do Amazonas.

A atividade turística, porém, depende de autorização local e do respeito às regras ambientais. A pesca em rios e lagos amazônicos está sujeita a períodos de defeso, limites de captura e normas específicas, que podem variar conforme a espécie e a área. Visitantes devem buscar informações atualizadas antes de realizar qualquer atividade.

O potencial pesqueiro também é apontado no Alto Rio Nhamundá e no Complexo de Lagos do Macuricanã. A existência de ambientes preservados, entretanto, exige planejamento para que o turismo não provoque pressão excessiva sobre os estoques de peixes e sobre as comunidades que dependem dos recursos naturais.

Festas, fé e gastronomia

A cultura de Nhamundá se expressa em eventos religiosos, exposições, festivais de verão e celebrações ligadas à produção rural. Entre as manifestações mencionadas pelo município estão a Expoanh, a FeirArte e a Festa da Pesca do Tucunaré.

A religiosidade também ocupa espaço importante na vida comunitária. Nossa Senhora da Assunção é apresentada como padroeira do município, enquanto Santo Antônio é reconhecido como co-padroeiro. As festas religiosas ajudam a preservar práticas transmitidas entre gerações e funcionam como momentos de encontro entre moradores da sede e das comunidades rurais.

Na alimentação, ingredientes amazônicos aparecem no cotidiano. Tucunaré, tambaqui, tucumã e farinha fazem parte da gastronomia regional. A farinha de mandioca, produzida e consumida em diferentes áreas do interior do Amazonas, é especialmente associada aos hábitos alimentares e às formas de trabalho das famílias rurais.

Esses elementos mostram que a cultura de Nhamundá não se resume às lendas ou às paisagens. Ela também está presente nos alimentos, nas festas, na religiosidade, nos deslocamentos pelos rios e nas relações de solidariedade que organizam a vida comunitária.

Um município entre memória e natureza

Conhecer Nhamundá é observar como história e geografia se articulam no interior do Amazonas. O município nasceu em uma região de presença indígena antiga, desenvolveu-se junto aos rios e construiu sua identidade a partir da convivência entre comunidades, floresta e águas.

As praias de água doce, as ilhas, os lagos e as cachoeiras ajudam a explicar o interesse turístico pela região. Já as narrativas sobre Jamundá, as Icamiabas e o muiraquitã preservam referências que atravessam gerações e conectam a cidade a uma memória mais ampla da Amazônia.

Ao mesmo tempo, a realidade de Nhamundá é marcada pelos desafios comuns aos municípios amazônicos: longas distâncias, dependência do transporte fluvial, variações sazonais dos rios e necessidade de conciliar atividades econômicas com conservação ambiental.

Entre o passado indígena, a formação ribeirinha e as paisagens moldadas pelas águas, Nhamundá mantém uma identidade própria no Baixo Amazonas. Sua história não está apenas nos registros oficiais, mas também nos caminhos dos rios, nas festas, nas comunidades e na relação cotidiana de seus moradores com o território.