segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Esportes

Paradesporto no Amazonas reúne histórias de superação, formação e competição

O paradesporto no Amazonas avançou da iniciação escolar ao alto rendimento. Trajetórias como as de Laiana Rodrigues, Maria de Fátima e Elielton Lira revelam conquistas importantes, mas também expõem a necessidade de investimentos permanentes em formação, viagens e equipamentos.

O paradesporto no Amazonas construiu, nos últimos anos, uma trajetória que vai da iniciação em escolas públicas ao alto rendimento em competições nacionais e internacionais. O estado já formou atletas convocados para seleções brasileiras, medalhistas em Jogos Paralímpicos e jovens que começam a carreira em torneios escolares.

Esse percurso aparece em histórias como as de Laiana Rodrigues, Maria de Fátima Costa de Castro e Elielton Lira, representantes amazonenses nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024. Também está presente nas delegações escolares que participam das Paralimpíadas Escolares e nas competições realizadas em Manaus, que reúnem atletas de diferentes faixas etárias e níveis de experiência. (gov.br)

Da escola à seleção brasileira

Para muitos atletas, o primeiro contato com o esporte adaptado ocorre no ambiente escolar. No Amazonas, os Jogos Escolares do estado e as Paralimpíadas Escolares funcionam como espaços de descoberta de talentos, formação esportiva e convivência entre estudantes com deficiência.

Uma pesquisa publicada na revista Conexões analisou a participação amazonense nas Paralimpíadas Escolares entre 2009 e 2023. O estudo identificou que o estado esteve presente em todas as edições do período e apontou 2019 como o ano de maior delegação, com 48 integrantes. Atletismo e natação aparecem entre as modalidades mais frequentes entre os estudantes amazonenses. (cev.org.br)

Os resultados mostram que a base escolar não é apenas uma etapa de competição. Ela pode ser a porta de entrada para treinamentos mais especializados, viagens, contato com técnicos e participação em eventos nacionais. Para que esse caminho continue, no entanto, é necessário manter o trabalho de professores, famílias, escolas, federações e instituições de apoio.

Laiana Rodrigues: do voleibol escolar aos Jogos Paralímpicos

Nascida e criada em Manaus, Laiana Rodrigues Batista começou a jogar vôlei aos 14 anos, durante a passagem pela rede estadual de ensino. A atleta participou dos Jogos Escolares do Amazonas como estudante e, mais tarde, voltou à competição na função de treinadora.

Aos 18 anos, depois de enfrentar um quadro de dengue hemorrágica, Laiana desenvolveu a síndrome de Guillain-Barré, condição que afetou sua força muscular e interrompeu os planos de profissionalização no voleibol convencional. O afastamento das quadras, porém, não encerrou sua relação com o esporte.

Laiana se formou em Educação Física, trabalhou com pessoas com deficiência e concluiu cursos de bocha paralímpica e vôlei sentado na Universidade Federal do Amazonas. A experiência como atleta e educadora contribuiu para sua chegada à seleção brasileira feminina de vôlei sentado.

Antes de Paris, a amazonense já havia conquistado a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016, e de Tóquio, em 2021, além de pratas nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, em 2015, e Lima, em 2019. A participação na edição francesa, em 2024, foi sua terceira presença em Jogos Paralímpicos. (seduc.am.gov.br)

A trajetória de Laiana evidencia a importância do esporte escolar como ponto de partida. A escola foi o local onde ela conheceu a modalidade, disputou as primeiras competições e teve contato com profissionais que ajudaram a desenvolver suas habilidades. Mais tarde, o mesmo ambiente também se tornou espaço de atuação profissional.

Maria de Fátima e a primeira medalha paralímpica do Amazonas

Natural de Tefé, no interior do estado, Maria de Fátima Costa de Castro nasceu com uma má-formação congênita nas pernas. Ela conheceu o halterofilismo paralímpico em 2017 e passou a se dedicar com maior intensidade à modalidade a partir de 2019.

Antes dos Jogos de Paris, a atleta havia conquistado o bronze na Copa do Mundo de Dubai, em 2022; o bronze nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago, em 2023; e a prata por equipes no Mundial de Dubai, também em 2023. Os resultados ajudaram a colocá-la entre os principais nomes brasileiros da categoria até 67 quilos.

Em 6 de setembro de 2024, Maria de Fátima levantou 133 quilos e conquistou a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Paris. O resultado foi reconhecido como a primeira medalha paralímpica da história do Amazonas. A marca colocou o estado no quadro de medalhistas da competição e ampliou a visibilidade do halterofilismo paralímpico. (cpb.org.br)

A conquista também mostrou a presença do interior na formação de atletas de alto rendimento. Embora grande parte da estrutura esportiva esteja concentrada em Manaus, a história de Maria de Fátima nasceu em Tefé e alcançou uma das principais competições do calendário mundial.

Elielton Lira e a presença amazonense em Paris

O Amazonas também foi representado em Paris pelo judoca Elielton Lira de Oliveira. Nascido em Manaus, o atleta perdeu a visão aos 12 anos, após um acidente com arma de fogo, e iniciou a prática do judô cerca de uma década antes dos Jogos de 2024.

Elielton chegou à competição internacional com duas medalhas de prata em Jogos Parapan-Americanos, conquistadas em Santiago, em 2023, e no Canadá, em 2022. Em Paris, competiu na categoria até 60 quilos, classe J1, voltada a atletas com deficiência visual. (gov.br)

A participação dos três atletas amazonenses em Paris — Laiana Rodrigues, Maria de Fátima e Elielton Lira — representou a presença do estado em três modalidades distintas: vôlei sentado, halterofilismo e judô. O grupo também mostrou que o paradesporto amazonense tem caminhos diferentes de desenvolvimento, que passam pelo esporte escolar, por projetos de formação e pela inserção em programas de apoio ao alto rendimento.

Competições escolares mantêm a base ativa

O crescimento do paradesporto depende da existência de competições regulares para crianças e adolescentes. Nas Paralimpíadas Escolares, os estudantes amazonenses participam de modalidades individuais e coletivas, com destaque para atletismo, natação, judô e bocha.

Em 2024, a delegação do Amazonas conquistou oito medalhas no primeiro dia da competição. A participação daquele ano incluiu atletas em seis das 13 modalidades esportivas disputadas. O desempenho foi acompanhado por professores e treinadores da rede pública, responsáveis por identificar estudantes com potencial e organizar a preparação para eventos nacionais. (seduc.am.gov.br)

Os resultados escolares não devem ser avaliados apenas pelo número de medalhas. A prática esportiva contribui para a autonomia, a socialização e a permanência dos estudantes em atividades coletivas. Também ajuda a reduzir a distância entre a pessoa com deficiência e os espaços de competição, ainda pouco acessíveis em várias regiões.

Em 2025, o Amazonas encerrou o primeiro bloco das Paralimpíadas Escolares com 35 medalhas e oito recordes escolares, segundo a Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar. O resultado reforçou a evolução técnica da delegação, mas também indicou a necessidade de continuidade no trabalho de base. (seduc.am.gov.br)

Manaus concentra eventos e estrutura

A capital amazonense concentra boa parte dos treinamentos, equipamentos, profissionais especializados e competições do estado. A realização do Meeting Paralímpico em Manaus, em 2025, reuniu 109 atletas na Vila Olímpica: 91 nas provas de atletismo e 18 no halterofilismo. O evento recebeu participantes de categorias que iam da sub-11 ao absoluto.

Competições desse tipo cumprem duas funções. De um lado, permitem que atletas experientes busquem marcas e resultados para o alto rendimento. De outro, aproximam crianças e adolescentes do ambiente competitivo e oferecem aos técnicos uma oportunidade de observar novos talentos.

O encontro também impulsionou discussões sobre a criação de um Campeonato Amazonense de Atletismo Paralímpico, iniciativa articulada por entidades esportivas, instituições de ensino e o Comitê Paralímpico Brasileiro. A proposta indicou uma tentativa de ampliar o calendário local e reduzir a dependência de competições realizadas fora do estado. (acritica.com)

Os desafios fora dos pódios

As conquistas individuais convivem com obstáculos estruturais. Para atletas do interior, o deslocamento até Manaus pode envolver longas viagens, custos elevados e dificuldade para conciliar treinos, estudos e compromissos familiares. A oferta de equipamentos adaptados e profissionais especializados também não é distribuída de maneira uniforme.

Outro desafio é garantir continuidade. A iniciação esportiva pode revelar um talento, mas a passagem para o alto rendimento exige treinamento regular, acompanhamento médico, classificação funcional, participação em competições e apoio financeiro. Sem essas etapas, muitos atletas podem abandonar a carreira antes de alcançar níveis nacionais.

O governo estadual informou que o Bolsa Esporte contemplou 121 atletas e paratletas amazonenses em 2024, distribuídos em 25 modalidades. O programa também previu apoio a representantes do estado que participaram dos Jogos de Paris. Dados oficiais apontam ainda que o patrocínio destinado a Maria de Fátima incluiu recursos pelo resultado obtido na competição. (amazonas.am.gov.br)

Programas de bolsa e patrocínio são importantes, mas não substituem políticas permanentes de formação. O desenvolvimento do paradesporto depende de uma rede que inclua escolas acessíveis, espaços adequados, transporte, técnicos capacitados, atendimento de saúde e oportunidades para atletas em diferentes níveis.

Superação individual e responsabilidade coletiva

As histórias do paradesporto no Amazonas costumam ser apresentadas a partir da ideia de superação. Ela está presente nas trajetórias de atletas que enfrentaram doenças, acidentes, limitações físicas e dificuldades de acesso até chegar às principais competições. Mas a medalha não é resultado apenas da força de vontade individual.

Por trás de cada participação há professores, treinadores, familiares, profissionais de saúde, instituições de ensino e programas públicos. No caso de Laiana, a escola esteve no início e na continuidade da trajetória. Para Maria de Fátima, o apoio ao treinamento e a participação em torneios foram fundamentais para transformar uma experiência esportiva em carreira. Elielton, por sua vez, representa a possibilidade de inserção do atleta com deficiência visual em uma modalidade de combate.

O desafio do Amazonas é transformar histórias isoladas em um sistema duradouro. Isso significa ampliar o acesso para além da capital, manter as competições escolares, fortalecer as entidades esportivas e criar condições para que os atletas tenham apoio durante toda a carreira.

Os resultados de Paris 2024 e o crescimento das competições escolares mostram que há talento e capacidade de organização. A próxima etapa é garantir que mais crianças e jovens encontrem no esporte adaptado não apenas uma oportunidade de competir, mas também um caminho de formação, autonomia e participação social.