segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Esportes

Pesca esportiva impulsiona turismo e economia no interior do Amazonas

A pesca esportiva se consolidou como um dos principais segmentos do turismo de natureza no interior do Amazonas. Municípios como Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Novo Airão, Careiro e Tefé integram roteiros procurados por visitantes interessados nos rios, na floresta e na captura do tucunaré, especialmente o tucunaré-açu. O crescimento do setor amplia oportunidades econômicas, mas também exige regras claras, fiscalização e participação das comunidades locais.

A pesca esportiva no Amazonas se tornou um dos principais segmentos do turismo de natureza no Estado. A atividade combina a busca por espécies de grande porte, como o tucunaré-açu, com viagens pelos rios, hospedagem em pousadas e barcos-hotéis e contato direto com comunidades ribeirinhas.

Embora Manaus seja a principal porta de entrada dos visitantes, boa parte da experiência ocorre no interior amazonense. Municípios como Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, Novo Airão, Careiro e Tefé aparecem entre os destinos associados ao turismo de pesca e às atividades realizadas em rios, lagos e igarapés. A própria Amazonastur classifica a pesca esportiva como um dos segmentos mais fortes do turismo no Estado e cita Careiro, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos entre os municípios mais procurados. (amazonastur.am.gov.br)

Uma atividade ligada aos rios e à floresta

O turismo de pesca no Amazonas depende da extensa rede hidrográfica e da diversidade de ambientes aquáticos existentes no Estado. A programação costuma envolver deslocamentos de barco, uso de canoas ou voadeiras, acompanhamento de guias especializados e permanência em estruturas instaladas próximas às áreas de pesca.

O atrativo central é o tucunaré, peixe conhecido pela força e pelo comportamento durante a captura. No Amazonas, a espécie ganhou importância econômica, cultural e turística. A Lei Estadual nº 6.647, de 15 de dezembro de 2023, reconheceu o tucunaré como peixe símbolo da pesca amadora e esportiva e estabeleceu regras específicas para a atividade. (ipaam.am.gov.br)

O interesse não se limita à captura. Para muitos visitantes, a viagem inclui observação da paisagem, convivência com moradores, alimentação regional e conhecimento da dinâmica dos rios. Esse conjunto amplia o potencial do segmento como forma de turismo de natureza e como alternativa de geração de renda para municípios distantes dos grandes centros.

Barcelos e outros polos do interior

Barcelos é um dos nomes mais conhecidos da pesca esportiva amazonense, especialmente pela procura por áreas do Rio Negro e de seus afluentes. O município também se tornou referência para operadores, guias, pousadas e embarcações voltadas ao atendimento de pescadores brasileiros e estrangeiros.

Santa Isabel do Rio Negro aparece no mesmo circuito por sua localização estratégica e pela presença de ambientes favoráveis à atividade. Novo Airão, por sua vez, reúne turismo de natureza, unidades de conservação e passeios fluviais, podendo integrar a pesca a outros produtos turísticos. Careiro e Tefé também são citados em roteiros e estratégias estaduais relacionadas ao setor.

A concentração da atividade em diferentes municípios reduz a dependência de um único destino e permite distribuir parte dos ganhos pelo interior. No entanto, a existência de potencial natural não garante, por si só, a consolidação do turismo. São necessários transporte regular, segurança, comunicação, qualificação profissional, licenciamento, infraestrutura de hospedagem e mecanismos de proteção dos estoques pesqueiros.

Impacto sobre a economia local

A cadeia da pesca esportiva envolve mais do que o pescador e o peixe capturado. O fluxo de visitantes gera demanda por pilotos, condutores, cozinheiros, camareiros, mecânicos, comerciantes, fornecedores de combustível, alimentação e equipamentos.

Também movimenta empresas de transporte, agências, pousadas, barcos-hotéis e serviços de manutenção. Em comunidades ribeirinhas, a atividade pode criar oportunidades complementares à pesca de subsistência e a outras formas de trabalho, desde que a participação local seja planejada e os benefícios não fiquem concentrados apenas nos operadores externos.

Relatório do Governo do Amazonas sobre as ações de 2025 informa que mais de 2 mil pessoas foram formadas, em parceria com o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas, em cursos ligados ao turismo, à hospitalidade e à condução de pesca esportiva. O documento também registra que o Estado vem promovendo o segmento em feiras e eventos nacionais e internacionais. (amazonas.am.gov.br)

A qualificação é relevante porque o serviço exige conhecimento de navegação, primeiros socorros, atendimento ao visitante, legislação ambiental e técnicas adequadas de manejo dos peixes. Em áreas remotas, o preparo dos profissionais também pode ser decisivo para reduzir riscos durante os deslocamentos e as atividades embarcadas.

Pesque e solte é regra para o tucunaré

O modelo predominante da pesca esportiva no Amazonas é o pesque e solte. Pela legislação estadual, o abate do tucunaré é proibido para pescadores amadores e esportivos, que devem devolver o peixe vivo ao ambiente de captura.

A norma também estabelece restrições para o tucunaré-açu, o tucunaré-vazoleri e o tucunaré-pinima. Para essas espécies, estão proibidos a captura, o embarque, o transporte, o abate e o processamento no Estado, conforme as regras previstas na Lei nº 6.647/2023. A pesca de subsistência não é abrangida pela cota zero estabelecida para a atividade esportiva. (ipaam.am.gov.br)

O pesque e solte não elimina todos os impactos da atividade. O manuseio inadequado, o tempo prolongado fora da água, o uso de equipamentos incompatíveis e a soltura em condições desfavoráveis podem aumentar o risco de mortalidade dos peixes. Por isso, a conservação depende tanto da legislação quanto da adoção de boas práticas por pescadores, guias e operadores.

A proteção dos estoques também exige respeito ao período de defeso, às áreas interditadas, aos limites de captura aplicáveis a outras espécies e às regras específicas de cada ambiente. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas é responsável por licenciar, monitorar e controlar atividades relacionadas à pesca amadora, além de analisar processos e acompanhar certificados e licenças do setor. (ipaam.am.gov.br)

Licenciamento e responsabilidade dos operadores

O turista interessado em pescar deve verificar previamente as exigências federais e estaduais. A licença para pesca amadora ou esportiva emitida pelo governo federal tem validade de um ano em todo o território nacional, mas não autoriza a atividade em locais protegidos por normas específicas. A pesca amadora é considerada não comercial, e a comercialização do pescado capturado é proibida. (gov.br)

No Amazonas, operadores, agências, pousadas e embarcações estão sujeitos a exigências próprias. O IPAAM informa que processos relacionados ao Certificado de Registro de Pesca devem incluir, conforme o caso, documento de regularidade da embarcação emitido pela Capitania dos Portos, licença de operação ambiental para pousadas, cadastro no Cadastur e plano de trabalho. Ao final da temporada, também deve ser apresentado o diário de bordo. (ipaam.am.gov.br)

Essas exigências servem para identificar os responsáveis pela operação, permitir o acompanhamento da atividade e reduzir a atuação de empresas sem autorização. Antes de contratar um pacote, o visitante deve confirmar se a agência ou o operador está regularizado, se a embarcação possui documentação e se o roteiro respeita áreas autorizadas e períodos de pesca.

Desafios para o crescimento sustentável

O avanço do turismo de pesca ocorre em uma região marcada por grandes distâncias, sazonalidade dos rios e infraestrutura desigual. O acesso a muitos destinos depende de transporte fluvial e de condições adequadas de navegação. Em determinadas épocas, a variação do nível dos rios pode alterar os trajetos, os pontos de pesca e a operação de pousadas e barcos-hotéis.

Outro desafio é conciliar a pesca esportiva com a pesca de subsistência e com outras atividades econômicas praticadas pelas populações locais. A legislação estadual determina que o desenvolvimento da atividade considere a capacidade de suporte dos ambientes aquáticos, as áreas autorizadas e as regras locais. Também prevê o cadastramento e o licenciamento de associações e operadores turísticos. (legisla.imprensaoficial.am.gov.br)

Na prática, o ordenamento precisa ser acompanhado por fiscalização contínua e por mecanismos de diálogo com as comunidades. O conhecimento dos moradores sobre os ciclos dos rios, os locais de reprodução e a presença das espécies pode contribuir para o planejamento dos roteiros e para a proteção dos ambientes.

A geração de renda também deve ser avaliada com critérios objetivos. Não basta contabilizar o número de visitantes. É importante acompanhar quantos empregos são criados, quanto permanece nos municípios, quais comunidades participam da cadeia, como os recursos ambientais são monitorados e quais resultados são obtidos com o licenciamento.

Turismo de natureza além da pesca

O potencial do interior amazonense está em integrar a pesca esportiva a outras experiências. Passeios de observação da fauna, trilhas, visitas a comunidades, gastronomia regional, artesanato e hospedagem em áreas de floresta podem ampliar o tempo de permanência do visitante e distribuir melhor os gastos.

Essa integração também reduz a dependência de um único atrativo. Quando o roteiro inclui diferentes atividades, o destino pode atender acompanhantes que não pescam e funcionar em períodos de menor procura pela pesca. Para isso, é necessário estruturar produtos turísticos com segurança, informação, condutores capacitados e respeito aos limites ambientais.

O Plano Estadual de Turismo do Amazonas para o período de 2026 a 2036 inclui a pesca esportiva entre os segmentos estratégicos e relaciona o setor a operações consolidadas, rios e lagos com potencial, comunidades ribeirinhas, gastronomia e turismo de natureza. (amazonastur.am.gov.br)

Perspectivas para o setor

A pesca esportiva tem condições de continuar ampliando sua presença no turismo amazonense, sobretudo se o crescimento vier acompanhado de planejamento. A valorização do pesque e solte, a proteção do tucunaré, a formação de profissionais e a regularização dos operadores são elementos centrais para preservar o atrativo que sustenta a própria atividade.

Para os municípios do interior, o segmento representa uma possibilidade de diversificar a economia e fortalecer serviços ligados aos rios e à floresta. Para os visitantes, oferece uma experiência de natureza em ambientes de grande singularidade. O equilíbrio entre esses interesses dependerá da capacidade do poder público, das empresas e das comunidades de transformar o potencial dos rios em turismo responsável, com benefícios locais e conservação ambiental.