Os cuidados com a saúde durante a cheia dos rios são essenciais para reduzir o risco de doenças e acidentes no Amazonas. A elevação do nível dos rios pode levar água contaminada, lama, lixo e esgoto para perto das moradias, além de deslocar cobras, escorpiões e aranhas para áreas secas.
Nesse período, a população deve redobrar a atenção com a água para consumo, a conservação dos alimentos, a proteção da pele e dos pés e a atualização da vacinação. Também é importante procurar atendimento de saúde diante de febre, diarreia, vômitos, dores no corpo, ferimentos ou contato com animais peçonhentos.
As orientações abaixo são baseadas em recomendações do Ministério da Saúde e em alertas divulgados pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas.
Água da cheia não deve ser usada para beber
A água de rios, igarapés, poços, cacimbas, caixas-d’água ou torneiras pode estar imprópria após uma inundação. Mesmo quando não apresenta cheiro, cor ou gosto diferentes, ela pode conter microrganismos capazes de causar diarreia, hepatite A, febre tifoide, verminoses e outras doenças.
Não beba água de inundação nem utilize esse tipo de água para preparar alimentos, escovar os dentes ou lavar utensílios. Também não é recomendado tomar banho ou nadar em água de enchente, especialmente quando há suspeita de mistura com esgoto, lixo ou lama.
Quando não houver água tratada disponível, a orientação do Ministério da Saúde é filtrar ou coar a água e, depois, desinfetá-la com hipoclorito de sódio a 2,5%, seguindo a medida indicada pelas autoridades de saúde. Uma alternativa é filtrar ou coar a água e fervê-la por cinco minutos após o início da fervura. Depois, é preciso esperar esfriar antes do consumo.
Para a desinfecção com hipoclorito, deve ser usado somente produto próprio para esse fim, sem perfume, alvejante, detergente ou outros aditivos. A embalagem e a concentração precisam ser conferidas antes do uso. Na dúvida, procure orientação na unidade de saúde ou na secretaria municipal de Saúde.
Se a água da torneira apresentar alteração de cor, odor ou sabor, evite o consumo até receber orientação oficial. Em áreas rurais e comunidades afetadas, o fornecimento de hipoclorito pode ocorrer por meio das redes municipais de saúde.
Segundo a orientação oficial, a água deve ser tratada antes do consumo, e a água sanitária não deve ser colocada diretamente em alimentos ou usada sem a diluição correta. (gov.br)
Alimentos que tiveram contato com a água devem ser descartados
Qualquer alimento que tenha entrado em contato com a água da cheia, com a lama ou com superfícies contaminadas deve ser descartado. Isso vale para produtos frescos, alimentos preparados, embalagens de papel, caixas, sacos, garrafas, potes e recipientes que não sejam completamente vedados.
Também não se deve experimentar a comida para verificar se ela está própria para o consumo. A aparência, o cheiro e o sabor não são suficientes para identificar contaminações.
Latas metálicas hermeticamente fechadas podem ser consideradas mais seguras quando não estão amassadas, enferrujadas, abertas ou danificadas. Ainda assim, elas devem ser higienizadas antes de serem abertas. Se houver qualquer dúvida sobre a integridade da embalagem, o alimento deve ser descartado.
Durante a cheia, mantenha os alimentos em recipientes fechados e em locais elevados, protegidos da água, da lama, de insetos e de roedores. Separe os alimentos crus dos já preparados e lave as mãos antes de cozinhar e antes das refeições, sempre com água tratada e sabão.
Leptospirose exige atenção após contato com lama e água contaminada
A leptospirose é uma infecção causada por bactérias presentes principalmente na urina de ratos e de outros animais infectados. Durante as cheias, a bactéria pode se espalhar pela água suja, pela lama e pelo esgoto.
O risco aumenta quando a pessoa entra na água contaminada com cortes, arranhões ou feridas na pele. Por isso, quem precisar atravessar ou limpar áreas alagadas deve cobrir lesões com proteção impermeável e usar botas, luvas e roupas que reduzam o contato com a água e a lama.
Após uma exposição, é importante observar o surgimento de febre, dor de cabeça, dores musculares — principalmente nas panturrilhas e na região lombar —, náuseas, vômitos, diarreia ou cansaço intenso. Em alguns casos, a doença pode evoluir de forma grave.
Quem apresentar febre ou outros sintomas depois de ter contato com água de enchente deve procurar uma unidade de saúde e informar claramente quando e como ocorreu a exposição. O tratamento deve ser iniciado conforme a avaliação clínica, sem que a pessoa espere a confirmação laboratorial para buscar atendimento.
Não há recomendação para tomar medicamentos por conta própria com o objetivo de evitar a leptospirose. A automedicação pode atrasar o diagnóstico e dificultar a avaliação do quadro.
O Ministério da Saúde reúne orientações específicas sobre leptospirose, incluindo sintomas, formas de transmissão, prevenção e sinais de gravidade. (gov.br)
Como reduzir o risco de diarreia e desidratação
A contaminação da água e dos alimentos pode provocar doenças diarreicas agudas. Os sintomas mais comuns incluem fezes amolecidas ou líquidas, dor abdominal, náuseas, vômitos e febre.
A pessoa com diarreia deve ingerir líquidos seguros e, quando indicado, utilizar a solução de reidratação oral distribuída pelo Sistema Único de Saúde. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas merecem atenção especial porque podem se desidratar com mais rapidez.
Procure atendimento médico se houver sangue ou muco nas fezes, vômitos repetidos, muita sede, redução da urina, sonolência, fraqueza intensa, febre persistente ou piora do quadro. Também é recomendado buscar assistência quando houver três ou mais episódios de diarreia em 24 horas, especialmente em crianças e idosos.
Antibióticos e outros medicamentos não devem ser usados sem avaliação profissional. A prioridade inicial é prevenir e corrigir a desidratação, além de investigar a causa dos sintomas.
Proteção contra tétano e ferimentos
Entulhos, galhos, pedaços de madeira, vidro, metal e objetos arrastados pela água podem causar cortes, perfurações e outros ferimentos. O tétano pode ocorrer quando a bactéria entra no organismo por meio de uma lesão contaminada.
Ao limpar a casa ou retirar objetos de áreas alagadas, use botas, luvas e roupas que cubram braços e pernas. Não é necessário que o metal esteja enferrujado para oferecer risco. Evite entrar em locais com água acumulada quando houver possibilidade de fios elétricos, tomadas, quadros de energia ou equipamentos submersos.
Em caso de ferimento, lave a área com água limpa e sabão, não aplique substâncias caseiras e procure uma unidade de saúde para avaliação. A equipe poderá verificar a necessidade de vacina ou de outras medidas de prevenção.
Durante o período de cheia, confira se a vacinação contra o tétano está atualizada. A Secretaria Municipal de Saúde pode informar os locais de atendimento e as orientações específicas para cada situação.
Animais peçonhentos podem procurar abrigo dentro das casas
A subida das águas desloca animais peçonhentos para locais secos, como forros, móveis, caixas, barcos, pilhas de madeira, entulhos e o interior das residências. Cobras, escorpiões e aranhas podem permanecer escondidos mesmo depois que a água baixa.
Antes de vestir roupas, calçados ou utilizar objetos que ficaram guardados, examine-os com cuidado. Evite colocar as mãos em buracos, frestas, caixas, montes de folhas ou entulhos. Sempre que possível, mantenha o ambiente limpo e retire materiais acumulados perto das casas.
Se encontrar um animal peçonhento, não tente capturá-lo, tocar nele ou verificar se está morto. Afaste crianças e animais domésticos e acione o serviço responsável do município, os bombeiros ou outro órgão competente.
Em caso de picada, mantenha a pessoa em repouso, lave o local com água e sabão, se possível, e procure atendimento médico imediatamente. Não faça torniquete, não corte a pele, não tente sugar o veneno e não aplique álcool, pó de café, ervas ou outras substâncias.
Se houver segurança, uma fotografia feita à distância pode ajudar na identificação, mas a busca por atendimento não deve ser adiada para tentar reconhecer o animal.
Cuidados em abrigos e comunidades afetadas
Em abrigos, barcos, escolas, unidades comunitárias e casas compartilhadas, o cuidado com a higiene ajuda a reduzir a transmissão de doenças. Lave as mãos antes das refeições, depois de usar o banheiro e após o contato com água, lama, lixo ou animais.
Mantenha os ambientes ventilados e, quando houver pessoas com sintomas respiratórios ou diarreia, reduza o compartilhamento de utensílios e objetos pessoais. Crianças pequenas devem ser supervisionadas para que não coloquem água, lama ou objetos contaminados na boca.
O lixo deve permanecer acondicionado e afastado dos alimentos. Quando não houver coleta regular, siga as orientações da Defesa Civil e dos serviços municipais para evitar acúmulo de resíduos e a presença de roedores.
Pessoas que fazem uso contínuo de medicamentos devem manter, sempre que possível, uma reserva segura e uma lista com os nomes dos remédios, doses e horários. Gestantes, idosos, crianças, pessoas com deficiência e pacientes com doenças crônicas podem precisar de planejamento específico para manter o atendimento durante o isolamento provocado pela cheia.
Quando procurar atendimento
Procure uma unidade de saúde diante de febre após contato com água ou lama de enchente, diarreia intensa, sangue ou muco nas fezes, vômitos persistentes, sinais de desidratação, dificuldade para respirar, ferimentos profundos, mordidas, picadas ou contato com animal peçonhento.
Em situações de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pode ser acionado pelo número 192, e o Corpo de Bombeiros pelo 193. Para orientações sobre riscos e deslocamento em áreas afetadas, acompanhe os canais oficiais da prefeitura, da Defesa Civil, da Secretaria Municipal de Saúde, da SES-AM e da FVS-RCP.
A prevenção durante a cheia depende de atitudes individuais e da atuação dos serviços públicos. Tratar a água, descartar alimentos contaminados, proteger a pele, manter a vacinação em dia e procurar atendimento diante dos primeiros sinais são medidas que ajudam a preservar a saúde das famílias no Amazonas.




