A água está presente em praticamente todas as atividades das comunidades ribeirinhas do Amazonas: beber, preparar alimentos, tomar banho, lavar utensílios, pescar e se deslocar. Por isso, quando a qualidade da água é afetada ou o acesso à água potável fica limitado, aumentam os riscos para a saúde e para a rotina das famílias.
Rios, igarapés, poços, cacimbas e água da chuva podem ser utilizados pelas comunidades, mas nenhuma dessas fontes deve ser considerada segura para consumo sem tratamento adequado. A água pode carregar microrganismos, resíduos, fezes, produtos químicos e outras substâncias que não são identificadas apenas pela aparência, pelo cheiro ou pelo sabor.
O cuidado é ainda mais importante durante períodos de cheia, quando a água pode entrar em contato com fossas, lixo e áreas contaminadas, e durante a estiagem, quando a redução do nível dos rios dificulta o acesso a fontes seguras. O Ministério da Saúde considera a qualidade da água para consumo humano uma medida essencial para prevenir doenças e agravos relacionados à água. (gov.br)
Por que a qualidade da água interfere na saúde
A água contaminada pode transmitir doenças infecciosas, principalmente quando é ingerida, usada para preparar alimentos ou empregada na higiene sem tratamento. Entre os problemas mais associados estão as doenças diarreicas agudas, a disenteria, a hepatite A e infecções provocadas por parasitas.
Segundo o Ministério da Saúde, as doenças diarreicas agudas podem ser causadas por bactérias, vírus e protozoários. A contaminação pode ocorrer pelo consumo de água ou alimentos contaminados, pelo contato com objetos sujos ou por mãos que não foram higienizadas adequadamente. (gov.br)
A principal complicação da diarreia é a desidratação. Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas podem apresentar maior risco de agravamento, especialmente quando há vômitos, febre ou dificuldade para repor líquidos.
A relação entre água e saúde não se limita às doenças infecciosas. Quando uma família precisa percorrer longas distâncias para buscar água, o tempo destinado ao cuidado das crianças, ao trabalho, à escola e à produção de alimentos também pode ser afetado. Um estudo realizado em comunidades do Médio Solimões identificou que sistemas de abastecimento contribuíram para reduzir o tempo gasto na busca de água e melhorar aspectos de conforto e privacidade, embora não tenham eliminado todos os problemas de saúde avaliados. (periodicos.fiocruz.br)
Cheias e estiagens aumentam os desafios
No Amazonas, o ciclo dos rios influencia o acesso à água e a logística de atendimento das comunidades. Durante as cheias, a água pode alcançar áreas de descarte de resíduos, instalações sanitárias e locais onde circulam animais. A mistura entre água de inundação e fontes usadas para beber ou cozinhar eleva o risco de contaminação.
Na estiagem, a redução do nível dos rios pode dificultar a captação e obrigar as famílias a buscar água em pontos mais distantes ou utilizar fontes alternativas. Documentos de planejamento do Estado do Amazonas apontam que a escassez de água potável em comunidades ribeirinhas pode levar ao uso de água sem tratamento e elevar o risco de doenças de veiculação hídrica. (seas.am.gov.br)
Em situações de emergência, a recomendação é acompanhar as orientações da Secretaria Municipal de Saúde, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e das equipes locais. A população também deve informar às autoridades quando houver mudança persistente na cor, no cheiro ou no sabor da água, mortandade de peixes ou suspeita de contaminação.
Como tratar a água antes de beber
Quando a água não chega tratada à residência, o tratamento doméstico deve ser feito antes do consumo e do preparo de alimentos. O procedimento recomendado pelo Ministério da Saúde é filtrar a água e, depois, desinfetá-la com solução de hipoclorito de sódio a 2,5%, seguindo a dosagem indicada na embalagem ou pela autoridade de saúde.
Para a orientação geral divulgada pelo Ministério da Saúde, devem ser adicionadas duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro de água filtrada. Depois, é necessário misturar e esperar 30 minutos antes de consumir. A água tratada com esse método deve ser usada em até 24 horas e mantida em recipiente limpo e tampado. (gov.br)
Outra alternativa é filtrar a água e fervê-la por cinco minutos, contados a partir do início da fervura. Após esfriar, a água deve ser armazenada em recipiente limpo, fechado e protegido de novas contaminações. A cartilha do Ministério da Saúde sobre doenças diarreicas reúne essas orientações para situações em que não há acesso regular à água tratada.
O hipoclorito utilizado deve ser próprio para desinfecção da água, ter concentração de 2,5% e estar dentro do prazo de validade. Não se deve usar produtos perfumados, coloridos, com detergente ou destinados exclusivamente à limpeza de superfícies. Em caso de dúvida, a orientação deve ser solicitada à unidade de saúde ou à vigilância sanitária local.
Cuidados para evitar a recontaminação
Tratar a água é apenas uma etapa. O recipiente usado para armazená-la precisa estar limpo, com tampa e, de preferência, ser reservado exclusivamente para água de beber. A retirada deve ser feita com utensílio limpo; não é recomendável mergulhar copos, mãos ou objetos sujos dentro do recipiente.
Também é importante manter a água protegida de poeira, insetos, animais domésticos, produtos de limpeza e combustíveis. O recipiente deve ficar em local fresco, fora do contato direto com o chão e longe de áreas sujeitas a alagamento.
Água destinada ao preparo de alimentos, ao consumo de crianças e à produção de gelo deve receber o mesmo cuidado. Frutas, verduras e utensílios usados na cozinha também precisam ser higienizados com água considerada segura.
Higiene das mãos e dos alimentos
A lavagem das mãos com água e sabão ajuda a interromper a transmissão de microrganismos. O cuidado deve ocorrer antes de preparar ou consumir alimentos, depois de usar o banheiro ou trocar fraldas, após o contato com animais e ao retornar de áreas externas.
Os alimentos devem ser protegidos de insetos e armazenados em recipientes fechados. Pescados, carnes e ovos precisam ser bem cozidos. Alimentos crus ou malcozidos podem causar infecções mesmo quando a água utilizada no preparo é segura.
Em locais onde não há banheiro, as fezes devem ser enterradas longe de rios, igarapés, poços e áreas de captação de água. O descarte inadequado de fezes e lixo favorece a contaminação do ambiente e pode atingir fontes usadas por toda a comunidade.
O que fazer em caso de diarreia
Ao primeiro sinal de diarreia, a prioridade é evitar a desidratação. A pessoa deve receber líquidos e, quando indicado, solução de sais de reidratação oral. Crianças devem continuar sendo amamentadas, e a alimentação habitual deve ser mantida conforme a tolerância.
É necessário procurar atendimento de saúde com urgência quando houver muita sede, boca seca, olhos fundos, sonolência, fraqueza intensa, redução da urina, vômitos repetidos, sangue nas fezes, febre persistente ou piora do quadro. Crianças pequenas e idosos precisam de atenção especial porque podem se desidratar rapidamente.
O Ministério da Saúde orienta que o retorno ao serviço de saúde também seja feito quando a diarreia não melhorar em até dois dias ou quando a pessoa não conseguir ingerir líquidos. Antibióticos não devem ser usados por conta própria: a indicação depende da avaliação clínica e da causa provável do quadro. (gov.br)
Quando procurar orientação sobre a água
A comunidade deve buscar a unidade básica de saúde, a Secretaria Municipal de Saúde ou a vigilância ambiental quando houver aumento de casos de diarreia, suspeita de contaminação, alteração incomum da água ou dúvidas sobre o uso de hipoclorito.
As autoridades de saúde são responsáveis por ações de vigilância e monitoramento da qualidade da água para consumo humano. Esse trabalho inclui coleta de amostras, avaliação de riscos e acompanhamento de situações relacionadas a surtos, desastres ambientais e mudanças nas condições de abastecimento. (gov.br)
Para as comunidades ribeirinhas do Amazonas, garantir água segura depende de medidas individuais e de políticas públicas permanentes. O tratamento doméstico, o armazenamento correto e a higiene reduzem riscos imediatos, mas não substituem sistemas de abastecimento, saneamento, monitoramento ambiental e atendimento de saúde próximos da população.
Em caso de dúvida, a orientação mais segura é não consumir água de origem desconhecida sem tratamento. A prevenção começa na fonte, continua durante o transporte e o armazenamento e termina somente no momento do consumo.

