As comunidades ribeirinhas do Amazonas vivem em uma relação direta com os rios. A água define o deslocamento, influencia o calendário de plantio, orienta a pesca e interfere no acesso a escolas, unidades de saúde, alimentos e serviços públicos. Nos últimos anos, porém, secas prolongadas, cheias intensas e temperaturas mais elevadas têm tornado essa relação mais difícil de prever.
Mesmo diante das mudanças climáticas, moradores de diferentes regiões do estado mantêm práticas culturais, formas de trabalho e conhecimentos transmitidos entre gerações. Festas religiosas, danças, produção de farinha, pesca artesanal, extrativismo e técnicas de construção continuam presentes no cotidiano. Ao mesmo tempo, as comunidades adaptam rotinas e procuram novas formas de proteger a alimentação, a renda e o acesso à água.
Rios mais extremos alteram a rotina
A população ribeirinha está acostumada à variação anual do nível dos rios. A subida e a descida das águas fazem parte do calendário amazônico e orientam atividades como o cultivo em áreas de várzea, a captura de peixes e o deslocamento entre comunidades. O problema ocorre quando a intensidade ou a duração desses ciclos foge do padrão conhecido pelos moradores.
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá, com atividades de campo em comunidades dos municípios amazonenses de Anori, Beruri e Tapauá, além de Iranduba, registrou relatos sobre os efeitos de secas e cheias severas. Segundo a pesquisa, a queda do nível dos rios pode impedir a chegada de barcos, danificar casas flutuantes e obrigar moradores a percorrer longas distâncias para buscar água e alimentos. (aen.pr.gov.br)
Relatórios de monitoramento também apontaram a dimensão da estiagem de 2024. Até o fim de setembro daquele ano, cerca de 745 mil pessoas haviam sido afetadas pela seca no Amazonas. Desse total, aproximadamente 330 mil, incluindo cerca de 115 mil crianças e adolescentes, viviam em aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas isoladas ou sob risco de isolamento. (gov.br)
O Serviço Geológico do Brasil registrou que, em 2024, os níveis de vários rios monitorados ficaram abaixo dos observados no ciclo anterior, com impactos sobre abastecimento, transporte, acesso a bens e serviços e fornecimento de alimentos. Embora os moradores conheçam a movimentação das águas, períodos de seca excepcional reduzem a capacidade de planejamento das famílias. (rigeo.sgb.gov.br)
Tradições seguem ligadas ao território
A vida ribeirinha não se resume à localização das casas às margens dos rios. Ela envolve uma rede de conhecimentos sobre o ambiente, o uso das plantas, o comportamento dos peixes, a época de plantio e as formas de cooperação entre famílias. Esses saberes ajudam a organizar a produção e também expressam a identidade de cada comunidade.
No Amazonas, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconhece e documenta manifestações culturais ribeirinhas, como a Dança do Gambá, a Dança dos Encomendadores de Almas, as danças de pássaros e a Dança do Africano. O órgão também registra festas religiosas, técnicas artesanais, sistemas agrícolas e conhecimentos tradicionais de comunidades de diferentes regiões do estado. (gov.br)
Essas manifestações são preservadas por meio da participação comunitária. Crianças e jovens aprendem músicas, passos, histórias, técnicas de produção e formas de organização com pais, avós e outros moradores mais velhos. A transmissão, porém, ocorre em um cenário de mudanças. Quando a seca impede a circulação de barcos ou a cheia altera os locais de encontro, festas e atividades coletivas podem ser adiadas, reduzidas ou reorganizadas.
A instabilidade climática também afeta o calendário de trabalho. A produção de farinha de mandioca, o plantio em áreas de várzea, a coleta de frutos e a pesca dependem de condições específicas de solo, água e temperatura. Quando o rio sobe mais rapidamente ou permanece acima do nível esperado, algumas etapas da produção precisam ser antecipadas ou interrompidas.
Pesca, agricultura e extrativismo sob pressão
Uma pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas identificou perdas em cadeias produtivas ligadas à borracha, à farinha de mandioca e a frutos de espécies oleaginosas. Os moradores ouvidos no estudo relataram que cheias mais prolongadas podem dificultar a colheita da mandioca e dos frutos, além de provocar a morte de seringueiras em determinadas áreas. (fapeam.am.gov.br)
O aumento da temperatura acrescenta outra dificuldade. A fabricação de farinha exige trabalho ao ar livre e exposição ao calor. Em períodos mais quentes, a atividade pode se tornar mais desgastante, especialmente para idosos e pessoas que precisam trabalhar por várias horas em casas de farinha pouco protegidas do sol.
A pesca artesanal também é afetada pelas mudanças no nível dos rios e pela alteração das condições dos ambientes aquáticos. A redução da água pode dificultar o deslocamento até lagos, igapós e canais onde os peixes costumam ser encontrados. Nas cheias, por outro lado, a dispersão dos peixes em áreas mais amplas pode aumentar o tempo e o custo necessários para a captura.
Esses impactos não atingem apenas a renda. Eles influenciam a alimentação, a circulação de mercadorias e o preço dos produtos nas comunidades. Quando os barcos não conseguem chegar, alimentos, combustível, remédios e materiais escolares podem ficar mais caros ou simplesmente não estar disponíveis por determinados períodos.
Adaptação combina conhecimento local e pesquisa
As comunidades desenvolvem respostas próprias para lidar com as alterações ambientais. Entre elas estão a escolha de áreas menos vulneráveis para plantar, a utilização de espécies mais resistentes à inundação, a mudança dos períodos de cultivo e a reorganização dos trajetos de transporte. Em casas flutuantes e palafitas, a estrutura das moradias também pode ser ajustada de acordo com a experiência de cada família.
Pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia apontam que moradores de áreas de várzea reconhecem mudanças na previsibilidade do clima e procuram adaptar os sistemas agrícolas. Entre as estratégias identificadas estão o cultivo de plantas capazes de suportar períodos de inundação e a escolha de locais menos afetados pela variação das águas. (repositorio.inpa.gov.br)
Para pesquisadores que estudam as comunidades, o conhecimento tradicional deve ser considerado nas políticas de adaptação. Os moradores acompanham há décadas o comportamento dos rios, das chuvas, dos ventos e das espécies. Esse conhecimento não substitui o monitoramento científico, mas ajuda a interpretar os sinais observados no território e a definir medidas adequadas à realidade local.
Em atividades de campo realizadas no Amazonas, pesquisadores promoveram oficinas participativas para ouvir os moradores e discutir os efeitos sociais, econômicos e de saúde associados às secas e às cheias. A proposta foi reunir dados científicos e experiências comunitárias na elaboração de planos de adaptação. (aen.pr.gov.br)
Acesso à água e serviços é um dos principais desafios
Durante estiagens severas, a dificuldade de acesso à água potável se torna uma das principais preocupações. A água dos rios pode ficar mais distante das casas, apresentar alteração na qualidade ou exigir tratamento antes do consumo. Em 2024, o governo do Amazonas instalou purificadores em comunidades de unidades de conservação nos municípios de Novo Aripuanã e Manicoré como parte de ações emergenciais contra os efeitos da seca. (sema.am.gov.br)
O transporte fluvial também sofre com a redução do nível dos rios. Em algumas localidades, embarcações deixam de operar em determinados trechos, e moradores precisam caminhar por áreas que normalmente ficam submersas. O problema afeta a ida à escola, o atendimento médico e a comercialização da produção.
Em Manaus, uma operação de estiagem anunciada em 2024 previu o atendimento a mais de 7,7 mil famílias de 93 comunidades ribeirinhas dos rios Negro e Amazonas. A ação incluiu a distribuição de alimentos, água e combustível. (manaus.am.gov.br)
Essas medidas emergenciais reduzem os efeitos imediatos da seca, mas não resolvem todas as dificuldades estruturais. A adaptação de longo prazo depende de transporte regular, sistemas de abastecimento, comunicação, atendimento de saúde, educação e apoio à produção. Também exige planejamento específico para cada calha de rio, já que as condições variam entre as regiões do estado.
Preservar a cultura também é uma forma de adaptação
A manutenção das tradições contribui para fortalecer a identidade e a capacidade de organização das comunidades. Festas, mutirões, associações e práticas de trabalho coletivo criam redes de apoio importantes em momentos de isolamento ou perda de produção.
Preservar esses costumes, no entanto, não significa ignorar as transformações. Muitas comunidades incorporam novas técnicas, equipamentos e formas de comunicação sem abandonar suas referências culturais. A adaptação ocorre quando o conhecimento local é combinado com informações meteorológicas, tecnologias de tratamento de água, melhoria das embarcações e políticas públicas permanentes.
O desafio é garantir que essas mudanças não provoquem o desaparecimento dos modos de vida ribeirinhos. Para isso, ações de prevenção precisam considerar as decisões dos próprios moradores, respeitar as características de cada território e assegurar que a população participe da definição das medidas.
No Amazonas, onde rios e florestas continuam organizando a vida de milhares de pessoas, as comunidades ribeirinhas enfrentam um cenário de incerteza crescente. A seca e a cheia podem mudar a rotina, interromper caminhos e reduzir a produção, mas não eliminam os vínculos construídos com o território. Entre tradições preservadas e estratégias renovadas, os moradores seguem procurando maneiras de permanecer, produzir e transmitir seus conhecimentos às próximas gerações.



