segunda-feira, 28 de setembro de 2026
MANCHETES

Conheça histórias de empreendedores que vivem da economia amazônica no Amazonas

Empreendedores do Amazonas transformam recursos da floresta, conhecimentos tradicionais e inovação em negócios que movimentam cadeias produtivas, fortalecem comunidades e ajudam a manter a floresta em pé.

Empreendedores do Amazonas estão transformando recursos da floresta, conhecimentos tradicionais e soluções tecnológicas em produtos e serviços com potencial de mercado. As iniciativas vão de cosméticos e alimentos à pesquisa científica, ao turismo e à valorização de cadeias produtivas conduzidas por comunidades rurais, ribeirinhas e extrativistas.

Esses negócios fazem parte de uma economia baseada na biodiversidade, também chamada de bioeconomia ou economia da sociobiodiversidade. No estado, cadeias como as do açaí, da castanha, do cacau, do pirarucu de manejo, das fibras, dos óleos vegetais e da seringueira já têm importância econômica e social. Segundo o governo estadual, a produção de açaí no Amazonas chegou a 110 mil toneladas em 2024. (investamazonas.am.gov.br)

Mais do que vender um produto amazônico, os empreendedores procuram agregar valor à matéria-prima, melhorar a remuneração de fornecedores e aproximar a produção local de consumidores de outras regiões. As histórias abaixo mostram diferentes caminhos para empreender a partir da floresta.

Biozer transforma pesquisa em cosméticos e produtos para a saúde

Uma das experiências mais conhecidas de empreendedorismo baseado na biodiversidade no Amazonas é a Biozer da Amazônia, empresa criada a partir de pesquisas desenvolvidas no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A iniciativa começou em 2008, com o pesquisador Carlos Cleomir de Souza Pinheiro, e passou por uma nova fase a partir de 2016, quando avançou para a produção e a comercialização de cosméticos, fitoterápicos e produtos voltados à saúde. (am.agenciasebrae.com.br)

O negócio foi assumido pelo filho do pesquisador, Danniel Pinheiro, em parceria com Amaral Neto. A trajetória da empresa incluiu dificuldades de infraestrutura logo no início da operação industrial. Em 2016, o galpão escolhido para a primeira fábrica foi encontrado sem parte das estruturas básicas e, posteriormente, sofreu uma inundação causada pelo rompimento de um cano. A equipe precisou reformar o espaço e recompor os equipamentos antes de iniciar a produção. (exame.com)

A Biozer utiliza ativos associados à biodiversidade amazônica, como açaí, guaraná, cupuaçu, castanha, andiroba, pracaxi, patauá, murumuru e tucumã. A empresa também mantém parcerias com famílias extrativistas responsáveis pelo fornecimento de matérias-primas. De acordo com levantamento do Programa Prioritário de Bioeconomia, a companhia trabalha sem loja física e comercializa seus produtos pela internet para diferentes partes do país. (bioeconomia.org.br)

Em 2025, a Biozer recebeu o primeiro lugar no Prêmio Nacional Anprotec de Empreendedorismo Inovador, na categoria Negócios de Impacto. O reconhecimento destacou uma empresa que combina pesquisa, desenvolvimento de produtos e uso econômico de espécies da floresta. (am.agenciasebrae.com.br)

O caso revela um dos principais desafios da economia amazônica: transformar conhecimento científico em produtos competitivos sem romper a relação com as comunidades que fornecem os insumos. Para isso, são necessários pesquisa, controle de qualidade, regularização, capacidade industrial e acesso a mercados.

Alimentos amazônicos chegam ao mercado com a Amazônia Smart Food

Outra história de empreendedorismo no Amazonas está ligada à alimentação. A Amazônia Smart Food desenvolve alimentos à base de plantas com ingredientes como açaí e tucumã. A empresa nasceu de uma proposta de oferecer opções para consumidores vegetarianos e flexitarianos, mas também de criar produtos com identidade regional e maior valor agregado.

Entre os itens desenvolvidos estão hambúrgueres, almôndegas, linguiças e sobremesas de origem vegetal. A empresa informa que trabalha com insumos locais e utiliza ferramentas de rastreabilidade para acompanhar a origem dos alimentos. A proposta é aproximar produtores rurais, consumidores e empresas por meio de cadeias produtivas consideradas de menor impacto ambiental. (amazoniasmartfood.com)

O empreendimento ganhou visibilidade nacional ao participar do programa Shark Tank Brasil, no qual buscou recursos para ampliar a produção e a presença no mercado. Segundo publicação sobre a participação, a empresa levantou R$ 350 mil durante o programa. (amazoniaempreendedora.com.br)

A relação com as comunidades está no centro do modelo de negócio. A Amazônia Smart Food mantém parcerias com 32 comunidades, principalmente no Amazonas, mas também em outros estados da região. O Sebrae informou que a iniciativa beneficia diretamente mais de 40 famílias e, indiretamente, mais de mil pessoas. (agenciasebrae.com.br)

O trabalho mostra como um produto tradicional pode ser apresentado em formatos diferentes sem perder a conexão com o território. O tucumã, por exemplo, deixa de ser apenas um ingrediente consumido regionalmente e passa a integrar alimentos industrializados voltados a públicos que procuram alternativas à proteína animal.

Esse processo, no entanto, depende de uma cadeia organizada. É preciso garantir fornecimento regular, padronização, transporte adequado e preço que remunere os produtores. A inovação, nesse caso, não está apenas na receita final, mas também na forma de organizar a relação entre empresa, fornecedores e consumidores.

Na agricultura e no turismo, Angelina Dias fortalece a economia local

Em Novo Airão, município conhecido pelo turismo de natureza e pela presença de comunidades ribeirinhas, a agricultora e empreendedora de impacto Angelina Dias Teixeira representa outro perfil de negócio amazônico. Ela vive na Comunidade Sobrado, localizada a cerca de uma hora de viagem fluvial da sede municipal, e participa de iniciativas voltadas à produção rural e ao desenvolvimento sustentável.

A experiência de Angelina foi citada pelo Sebrae Amazonas como exemplo das transformações promovidas pelo programa Cidade Empreendedora. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a prefeitura, prevê ações de capacitação, fortalecimento de pequenos negócios, geração de renda e apoio a atividades sustentáveis em comunidades ribeirinhas e na área urbana. (am.agenciasebrae.com.br)

Novo Airão reúne atividades econômicas relacionadas ao turismo de base comunitária, à produção de alimentos, ao artesanato e aos serviços ligados à floresta. Nesse modelo, moradores participam da recepção de visitantes, da condução de passeios, do preparo de refeições e da apresentação de conhecimentos sobre o território.

O turismo de base comunitária procura manter a comunidade no centro da atividade. A proposta é que os moradores não sejam apenas mão de obra, mas também gestores dos roteiros, anfitriões e responsáveis pela definição de como o território será apresentado. O Plano Estadual de Turismo do Amazonas aponta que esse modelo pode contribuir para a geração de trabalho e renda, a valorização cultural e a conservação ambiental. (amazonastur.am.gov.br)

Na prática, o empreendedorismo em comunidades amazônicas costuma combinar diferentes fontes de renda. Uma família pode produzir alimentos, trabalhar com pesca ou agricultura, receber visitantes em determinadas épocas do ano e vender artesanato. Essa diversificação reduz a dependência de uma única atividade e ajuda a enfrentar a sazonalidade dos rios e do turismo.

Uma nova geração de negócios nasce em incubadoras e programas de inovação

Além dos empreendimentos já consolidados, o Amazonas também abriga projetos em fase de desenvolvimento. Em 2025, a Incubadora de Empresas do Inpa habilitou propostas ligadas à bioeconomia, à recuperação ambiental, aos bioplásticos, às microalgas, ao design e ao aproveitamento de espécies nativas.

Entre os projetos habilitados estavam Tero Carbon, Phyto EcoFriendly, Aqua Viridi, Amazon-Kapok, Wuna Soluções em Design, M&G Soluções Ambientais e Bioplazon, voltado à produção de bioplásticos da Amazônia. Após a seleção, os responsáveis foram convocados para etapas de qualificação, modelagem de negócios e elaboração de planos empresariais. (gov.br)

A presença desses projetos indica que a economia amazônica não se limita ao extrativismo tradicional. Há também espaço para negócios que utilizam biotecnologia, materiais alternativos, serviços ambientais, inteligência de dados e design. O desafio é fazer com que essas soluções cheguem ao mercado sem perder escala, qualidade e vínculo com os territórios de origem.

Em Manaus, a Zona Franca e as instituições de pesquisa podem oferecer infraestrutura, conhecimento e possibilidades de industrialização para startups de bioeconomia. A Superintendência da Zona Franca de Manaus tem apresentado oportunidades para negócios baseados na biodiversidade amazônica, especialmente aqueles capazes de transformar matérias-primas locais em produtos industrializados. (gov.br)

O que sustenta os negócios da floresta

As histórias de empreendedores da economia amazônica no Amazonas têm pontos em comum. O primeiro é a necessidade de agregar valor aos produtos. Vender a matéria-prima sem beneficiamento costuma limitar a renda de quem produz. Transformá-la em cosmético, alimento, peça de design ou experiência turística pode ampliar o valor gerado na própria região.

O segundo ponto é a organização coletiva. Cooperativas, associações e parcerias com comunidades ajudam a garantir volume, regularidade e negociação mais equilibrada. Sem essa articulação, pequenos produtores enfrentam dificuldades para acessar mercados maiores e cumprir exigências de qualidade, embalagem e logística.

Também há obstáculos estruturais. As distâncias, o custo do transporte, a conectividade limitada em algumas áreas e a falta de assistência técnica podem dificultar o crescimento dos negócios. Em comunidades rurais, a sazonalidade da produção e a variação do nível dos rios influenciam diretamente o planejamento financeiro.

Por isso, programas de capacitação e acesso a mercados têm papel relevante. Em 2025, o Sebrae informou que 14 empresas amazonenses apoiadas pelo projeto de bioeconomia participaram de ações de exposição e comercialização durante a COP30, realizada em Belém. Entre os empreendimentos estavam empresas de alimentos, bebidas, cosméticos, mel, café e produtos de origem regional. (am.agenciasebrae.com.br)

Floresta em pé e renda no território

Os empreendedores apresentados mostram que a economia amazônica é formada por diferentes escalas e perfis. Há empresas de base científica, startups de alimentos, agricultores, prestadores de serviços turísticos, artesãos e comunidades que organizam coletivamente suas atividades.

O resultado econômico depende de mais do que a existência de recursos naturais. É necessário conhecimento, planejamento, acesso a financiamento, infraestrutura e respeito aos direitos das comunidades. Quando esses elementos se combinam, os produtos da floresta podem gerar renda sem depender da derrubada da vegetação.

No Amazonas, viver da economia amazônica significa transformar a biodiversidade em oportunidade, mas também reconhecer que a floresta tem limites e que os conhecimentos tradicionais são parte essencial desse processo. As experiências em andamento mostram que inovação e conservação não precisam ser caminhos opostos, desde que o desenvolvimento dos negócios mantenha os produtores e as comunidades no centro das decisões.