segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Cidades

Manicoré: rios, comunidades e economia local no Amazonas

Manicoré, no sul do Amazonas, tem sua trajetória marcada pelo Rio Madeira, pelas comunidades ribeirinhas e por uma economia baseada na agricultura, na pesca, no extrativismo e no comércio regional.

Manicoré, no sul do Amazonas, é um município cuja história e vida econômica estão diretamente ligadas aos rios. Localizada na margem direita do Rio Madeira, a cidade funciona como ponto de circulação de pessoas, mercadorias e serviços em uma extensa área do estado. Ao redor da sede municipal, comunidades ribeirinhas vivem da agricultura, da pesca, do extrativismo e de atividades comerciais que dependem do transporte fluvial.

Com população de 53.914 habitantes no Censo 2022, segundo o IBGE, Manicoré possui território superior a 48 mil quilômetros quadrados. A baixa densidade populacional ajuda a explicar uma característica importante do município: grande parte da população está distribuída em áreas rurais, comunidades, colocações e localidades acessíveis principalmente por barco.

Uma cidade formada às margens dos rios

A ocupação histórica de Manicoré está associada à navegação pelo Rio Madeira e à busca por rotas de circulação entre diferentes áreas da Amazônia. Registros reunidos pela Prefeitura de Manicoré apontam a passagem da expedição de Pedro Teixeira pela região em 1637. Séculos depois, a área passou a receber iniciativas de ocupação, missões religiosas e atividades comerciais relacionadas ao transporte fluvial.

Em 1797, foi fundada a povoação do Crato, criada com o objetivo de facilitar as transações comerciais entre o Pará, Mato Grosso e Goiás. Em 1802, a povoação foi transferida para uma área situada entre os rios Baetas e Arraias. A trajetória administrativa da localidade continuou com a criação da freguesia de São João Batista do Crato, em 1858.

Em 1868, a sede da freguesia foi transferida para o povoado de Manicoré, que passou a ser denominado Nossa Senhora das Dores de Manicoré. A localidade foi elevada à categoria de vila em 1877 e instalada no ano seguinte. Em 1878, tornou-se sede da Comarca do Rio Madeira. Em 1896, recebeu oficialmente a condição de cidade.

O nome do município está relacionado ao Rio Manicoré, afluente do Madeira. De acordo com a história oficial divulgada pela prefeitura, a denominação do rio tem origem no nome Ancoré, associado a um povo indígena que habitava a região. A presença dos rios, portanto, aparece tanto na identidade do município quanto na organização de seu território.

O Rio Madeira como eixo de circulação

Em Manicoré, o Rio Madeira cumpre funções que, em outras partes do país, são exercidas principalmente por rodovias. Ele serve como caminho para o transporte de passageiros, alimentos, combustível, materiais de construção e produtos agrícolas. Também é utilizado por embarcações de pesca, barcos de carga, canoas motorizadas e meios de transporte comunitários.

A dinâmica do município é influenciada pelo ciclo anual de cheias e vazantes. Durante a cheia, determinadas áreas de várzea ficam alagadas, o que interfere nas plantações, nas moradias e no acesso às comunidades. Na estiagem, surgem praias e trechos de passagem que alteram as rotas fluviais. Para as famílias ribeirinhas, acompanhar o comportamento do rio faz parte do planejamento da produção e dos deslocamentos.

Além do Madeira, a rede hidrográfica inclui rios, igarapés e afluentes como o Rio Manicoré, o Atininga e o Aripuanã. Esses cursos d’água ajudam a conectar áreas rurais, zonas de pesca e territórios de uso comunitário. Um relatório produzido no âmbito do governo federal destaca a presença de várzeas, florestas, igarapés e comunidades ribeirinhas na composição territorial do município.

Comunidades ribeirinhas e vida comunitária

As comunidades ribeirinhas de Manicoré não formam um conjunto homogêneo. Cada localidade possui sua própria história, organização, calendário de plantio e relação com o rio. Em comum, muitas dependem da navegação para chegar à sede municipal, acessar serviços públicos e comercializar a produção.

Um levantamento divulgado pela prefeitura registrou a existência de 214 comunidades rurais e apontou o barco como principal meio de acesso a essas localidades. O número aparece em uma publicação municipal de 2017 e pode não refletir alterações posteriores na organização territorial. Ainda assim, o dado ajuda a dimensionar a dispersão da população e a importância do transporte fluvial para o cotidiano local.

Nas comunidades, a produção costuma combinar diferentes atividades. Uma família pode cultivar mandioca e banana, manter pequenas criações, pescar para consumo e venda e coletar produtos da floresta em períodos específicos do ano. Essa combinação reduz a dependência de uma única fonte de renda, mas também expõe os moradores às variações do clima, dos preços, do custo do combustível e das condições de transporte.

O associativismo tem papel relevante nesse contexto. Organizações comunitárias, colônias de pescadores, cooperativas e entidades agroextrativistas atuam na defesa de interesses locais, na comercialização da produção e na busca por políticas públicas. Em áreas de difícil acesso, a organização coletiva também é usada para reivindicar escolas, atendimento de saúde, energia, água potável e melhorias nos portos e caminhos de circulação.

Agricultura, mandioca e produção de alimentos

A agricultura está entre as principais bases da economia de Manicoré. A produção inclui mandioca, banana, melancia, milho, feijão, abacaxi, cacau, açaí e outras culturas adaptadas às condições da região. A farinha de mandioca ocupa lugar central na alimentação e na comercialização, sendo produzida em casas de farinha familiares ou comunitárias.

Documentos municipais e estudos sobre o desenvolvimento local também citam a produção de tucumã, mel, frutas cítricas e hortaliças. A variedade indica que a economia rural não depende apenas de uma cultura permanente. Os agricultores adaptam o plantio às áreas de terra firme e de várzea, aos períodos de chuva e à possibilidade de escoamento pelo rio.

As cheias podem causar perdas significativas. Em áreas próximas ao Madeira, plantações de banana e mandioca ficam vulneráveis quando o nível das águas sobe além do esperado. Em contrapartida, a vazante pode ampliar a disponibilidade de áreas para determinados cultivos, embora também dificulte a navegação em alguns trechos.

A agricultura familiar atende parte do consumo local e movimenta feiras, pequenos comércios, embarcações e serviços de transporte. Quando há excedente, os produtos seguem para a sede municipal e, em alguns casos, para outros centros da calha do Madeira. O custo logístico, no entanto, continua sendo um dos fatores que limitam a expansão da produção.

Pesca e extrativismo na economia local

A pesca é outra atividade tradicional de Manicoré. O Rio Madeira e seus afluentes fornecem pescado para o consumo das famílias, abastecem o mercado local e sustentam pescadores profissionais e autônomos. Estudos acadêmicos sobre o Médio Madeira identificam a presença de pescarias comerciais e de subsistência, com participação de barcos e canoas que operam em diferentes trechos da bacia.

O pescado capturado no município também pode ser enviado a centros consumidores como Manaus e Porto Velho, de acordo com documentos de planejamento local. A atividade depende da disponibilidade dos estoques, das regras de manejo, das condições de armazenamento e do preço pago aos pescadores. A conservação dos ambientes aquáticos é, portanto, uma questão econômica além de ambiental.

O extrativismo vegetal inclui a coleta de castanha, borracha, óleos de copaíba e andiroba, além de frutos, sementes, cipós e outros produtos da floresta. No território do Rio Manicoré, comunidades também desenvolvem atividades relacionadas ao açaí, ao tucumã e à produção de farinha. O plano de manejo do ICMBio registra a diversidade de usos tradicionais dos recursos naturais na região.

Entre esses usos estão a coleta de castanha, a extração de óleos, a pesca, a retirada de madeira para construção e reparo de canoas e a produção artesanal com cipós e fibras. A intensidade dessas atividades varia conforme a distância das comunidades, o custo da viagem e a existência de compradores.

Do ciclo da borracha ao comércio regional

Manicoré também participou da economia amazônica associada ao ciclo da borracha. Durante o período de valorização do látex, o Rio Madeira foi uma rota importante para a circulação de trabalhadores, comerciantes e produtos. A cidade passou a exercer funções de entreposto regional, conectando áreas de produção florestal a mercados maiores.

Com a queda do preço da borracha e as mudanças no mercado internacional, a atividade perdeu força. A economia local, porém, não desapareceu. A agricultura, a pesca, a castanha, o comércio e outros produtos da floresta passaram a dividir espaço na geração de renda. Essa capacidade de combinação marcou a trajetória econômica do município.

Atualmente, o setor de serviços e o comércio também têm peso na economia de Manicoré. A sede concentra órgãos públicos, escolas, unidades de saúde, lojas, oficinas, depósitos, serviços de transporte e atividades ligadas ao abastecimento das comunidades. Um estudo do governo do Amazonas aponta que o setor terciário é o mais relevante na composição econômica municipal, enquanto a agropecuária mantém produção expressiva.

Território, conservação e desafios

A extensa área territorial de Manicoré inclui florestas, rios, áreas de várzea, comunidades tradicionais e unidades de conservação. Entre elas estão a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Amapá e áreas relacionadas à proteção da biodiversidade no sul do Amazonas. A existência desses territórios reforça a necessidade de conciliar conservação ambiental, segurança territorial e geração de renda.

Um dos desafios é garantir que as comunidades tenham condições de permanecer em seus territórios sem depender de atividades predatórias. Para isso, são importantes políticas de apoio à agricultura familiar, cadeias de valor da castanha e de outros produtos florestais, manejo pesqueiro, assistência técnica, transporte adequado e acesso a mercados.

Também pesam as dificuldades de acesso a serviços básicos. A distância entre as comunidades e a sede municipal pode tornar mais complexos o atendimento médico, o transporte escolar, a manutenção de sistemas de energia e o fornecimento de água potável. Em períodos de cheia ou de seca extrema, essas dificuldades tendem a aumentar.

Uma identidade construída entre cidade e floresta

Manicoré reúne elementos que definem grande parte da experiência amazônica: uma cidade voltada para o rio, comunidades espalhadas pela floresta, produção baseada no trabalho familiar e uma economia que combina atividades formais, informais, agrícolas, pesqueiras e extrativistas.

O município não pode ser compreendido apenas pela sede urbana. Sua dinâmica depende das relações entre o porto, os bairros, as comunidades, os rios e as áreas de produção. O Madeira é caminho, fonte de alimento, espaço de trabalho e referência cultural. Os rios Manicoré, Atininga e outros afluentes complementam essa rede e dão forma à vida cotidiana.

A história de Manicoré, iniciada em antigas rotas de navegação e consolidada com a formação administrativa do município, continua sendo atualizada pelas comunidades que cultivam, pescam, coletam e transportam seus produtos. É nessa relação entre território, água e trabalho que se encontra a principal chave para entender a economia e a identidade de Manicoré no Amazonas.