A história de Barcelos, no Amazonas, está ligada ao rio Negro, à presença de povos indígenas e à expansão da ocupação colonial na Amazônia. Conhecido atualmente como um dos principais destinos de pesca esportiva do Brasil, o município também foi a primeira sede da Capitania de São José do Rio Negro, antecedente administrativo do atual Estado do Amazonas.
A cidade surgiu a partir da antiga aldeia de Mariuá, estabelecida em 1728. Mais de três séculos depois, sua identidade reúne diferentes fases da história regional: a formação de missões religiosas, a administração colonial portuguesa, o extrativismo, a pesca de peixes ornamentais e o crescimento do turismo associado aos rios e à floresta.
De Mariuá a Barcelos
O núcleo que deu origem ao município foi fundado em 1728 como uma missão religiosa às margens do rio Negro. A denominação Mariuá é associada à população indígena que ocupava a região e aparece em registros históricos como o nome original do povoado.
A ocupação colonial não ocorreu sobre um território vazio. Antes da chegada das missões, diferentes povos indígenas viviam na bacia do rio Negro e mantinham relações com os rios, igarapés, florestas e áreas de pesca. A formação da aldeia esteve relacionada ao trabalho de missionários carmelitas e às estratégias da Coroa portuguesa para ampliar sua presença na região.
Em 6 de maio de 1758, a aldeia foi elevada à categoria de vila e recebeu o nome de Barcelos, em referência à cidade portuguesa de mesmo nome. A mudança integrou uma política colonial de reorganização das antigas aldeias e de substituição de denominações indígenas por nomes portugueses. A data é lembrada oficialmente como o aniversário do município, conforme informações do portal de turismo de Barcelos.
A primeira capital da Capitania de São José do Rio Negro
A elevação de Mariuá a vila ocorreu em um momento de reorganização política da Amazônia portuguesa. Em 1755, foi criada a Capitania de São José do Rio Negro, território que abrangia áreas correspondentes, em linhas gerais, ao atual Amazonas e a Roraima. Barcelos tornou-se a sede administrativa da capitania.
Essa condição deu ao povoado importância política e estratégica. A localização no médio rio Negro favorecia a circulação fluvial e a comunicação com diferentes áreas do interior amazônico. A vila passou a concentrar atividades administrativas e a funcionar como ponto de articulação entre autoridades coloniais, missões, comerciantes e populações indígenas.
A sede do governo foi transferida para o Lugar da Barra, núcleo que posteriormente deu origem a Manaus, em 1791. O deslocamento esteve relacionado à posição estratégica da confluência dos rios Negro e Solimões e às mudanças nas prioridades de defesa e circulação da administração colonial. Registros históricos indicam que a sede retornou a Barcelos por um período antes de ser fixada novamente no Lugar da Barra no início do século XIX.
Embora tenha perdido a função de capital, Barcelos preservou o papel de centro histórico do rio Negro. A antiga condição administrativa ajuda a explicar a presença de edifícios, tradições e referências culturais ligadas ao período colonial na memória do município.
Rios, floresta e formação econômica
Durante os séculos seguintes, a vida econômica de Barcelos permaneceu fortemente vinculada aos rios e à floresta. A navegação era o principal meio de deslocamento, e a subsistência das comunidades combinava agricultura, pesca, caça e coleta de produtos florestais.
Como em outras áreas do interior amazônico, a economia regional também foi influenciada por ciclos extrativistas. Produtos como borracha, sorva, castanha e piaçava fizeram parte das atividades praticadas por populações ribeirinhas em diferentes períodos. A intensidade e a importância de cada produto variaram conforme a demanda comercial, as condições de transporte e as relações de trabalho estabelecidas na região.
Esse modo de vida produziu uma sociedade marcada pela circulação entre a sede municipal, as comunidades rurais e os rios. A relação cotidiana com o ambiente amazônico também contribuiu para a formação de conhecimentos locais sobre períodos de cheia e vazante, espécies de peixes, áreas de pesca e caminhos fluviais.
A tradição dos peixes ornamentais
Antes de se tornar famosa pela pesca esportiva, Barcelos ganhou projeção pela pesca e pelo comércio de peixes ornamentais. A atividade se fortaleceu a partir da segunda metade do século XX, especialmente com a exploração comercial do cardinal-tetra, conhecido na região como cardinal.
O peixe, de pequeno porte e com coloração intensa, passou a ser procurado pelo mercado de aquarismo no Brasil e no exterior. A captura mobilizou pescadores especializados, conhecidos como piabeiros, além de comerciantes, transportadores e exportadores. O trabalho exigia conhecimento detalhado dos igarapés e das áreas de ocorrência das espécies.
Estudos sobre a pesca ornamental no médio rio Negro descrevem Barcelos como um importante centro de comércio desse setor. A atividade chegou a ocupar posição central na economia local, mas enfrentou mudanças provocadas pela concorrência internacional, pela criação de espécies em cativeiro, pela variação da demanda e por dificuldades na organização da cadeia produtiva. Pesquisa divulgada pela Fapeam registra que a exploração de peixes ornamentais na região é antiga e permanece associada à identidade econômica e cultural do município.
Essa trajetória deu a Barcelos o título de “Terra do Peixe Ornamental”. O Festival do Peixe Ornamental também passou a integrar o calendário cultural local, valorizando os piabeiros e a relação histórica da população com os ambientes aquáticos.
Como a pesca esportiva ganhou força
A pesca esportiva ganhou espaço em Barcelos a partir da valorização do tucunaré, sobretudo do tucunaré-açu, espécie muito procurada por praticantes da modalidade. A combinação entre a extensão da bacia do rio Negro, a diversidade de ambientes aquáticos e a presença de grandes exemplares transformou o município em destino turístico especializado.
A atividade é praticada, em geral, no sistema pesque e solte. Nesse modelo, o peixe capturado é devolvido vivo ao ambiente, com o objetivo de reduzir a retirada dos estoques e manter a atividade ao longo do tempo. A legislação do Amazonas reconhece a pesca esportiva como modalidade esportiva e de relevante interesse econômico e cultural, vinculada ao turismo e à devolução do peixe ao local de captura.
Segundo levantamento da Amazonastur, a região formada por Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira concentrava metade do volume da pesca esportiva turística do Amazonas no período analisado. O mesmo estudo apontou que Barcelos reunia a maior parte das operações da região.
O turismo de pesca movimenta uma cadeia de serviços que inclui operadores, piloteiros, guias, embarcações, hospedagens, alimentação, comércio e transporte. A atividade também amplia a visibilidade do município e cria uma fonte de renda relacionada à preservação dos rios e da floresta.
O Arquipélago de Mariuá e o turismo de natureza
Um dos principais elementos da paisagem de Barcelos é o Arquipélago de Mariuá, formado por numerosas ilhas, canais, lagos e praias fluviais no rio Negro. O conjunto de ambientes proporciona condições para a pesca esportiva e para outras experiências de turismo de natureza.
Durante o período de seca, praias como a Praia Grande aparecem diante da sede municipal e se tornam espaços de lazer, eventos e convivência. Na cheia, a configuração da paisagem muda com a elevação das águas, alterando os caminhos, as áreas de pesca e o acesso às comunidades e aos atrativos.
O município também se relaciona com áreas protegidas e paisagens de grande relevância ambiental, como o Parque Nacional do Jaú e o Parque Estadual Serra do Aracá. A Amazonastur apresenta Barcelos como destino de ecoturismo e destaca sua localização na margem direita do rio Negro.
Desafios para a atividade
O reconhecimento de Barcelos como destino de pesca esportiva não elimina os desafios ambientais e sociais ligados ao crescimento do turismo. A conservação dos estoques pesqueiros, a fiscalização, o respeito às regras de manejo e a participação das comunidades são fatores importantes para a continuidade da atividade.
Pesquisas apoiadas pelo Governo do Amazonas têm analisado a percepção ambiental de pescadores esportivos, guias, empresários, comerciantes e moradores. O objetivo é compreender os efeitos do turismo e avaliar condições para que a pesca esportiva permaneça economicamente relevante sem comprometer os recursos naturais e os modos de vida locais, conforme informações divulgadas pela Fapeam.
A preservação também depende do ordenamento da atividade. Períodos de pesca, áreas autorizadas, licenças, regras de captura e práticas de devolução precisam ser observados por turistas, operadores e moradores. Em Barcelos, a discussão sobre sustentabilidade envolve tanto a pesca esportiva quanto a pesca comercial, a pesca ornamental e o uso cotidiano dos rios.
Uma história construída pelos rios
Barcelos reúne camadas distintas da história amazônica. A antiga Mariuá nasceu em um território de ocupação indígena e se transformou em missão, vila e sede administrativa da Capitania de São José do Rio Negro. Depois, manteve sua importância como centro ribeirinho e passou a ser reconhecida pela pesca ornamental.
Nas últimas décadas, a pesca esportiva acrescentou uma nova dimensão à economia e à imagem do município. A procura pelo tucunaré e pelos ambientes do rio Negro colocou Barcelos no circuito nacional e internacional do turismo de pesca.
A história de Barcelos, portanto, não se resume ao título de capital da pesca esportiva. Ela é resultado da relação prolongada entre população, rios e floresta, com atividades econômicas que mudaram ao longo do tempo, mas continuam dependentes do conhecimento local e da conservação do ambiente amazônico.
Fontes consultadas: Prefeitura de Barcelos, Portal de Turismo de Barcelos, Amazonastur, Fapeam e estudos acadêmicos sobre a pesca ornamental e esportiva no médio rio Negro.