Coari é um dos municípios mais importantes do interior do Amazonas. Localizado às margens do rio Solimões, o município reúne uma extensa área de floresta, rios, lagos, recursos pesqueiros e terras ligadas à produção rural. Também abriga a Província Petrolífera de Urucu, uma das principais áreas terrestres de extração de petróleo e gás natural do Brasil.
Essa combinação de riquezas naturais e infraestrutura energética fez de Coari um ponto estratégico para o Amazonas. A produção de Urucu abastece parte do mercado regional, movimenta a cadeia de transporte e serviços e contribui para a arrecadação pública por meio de royalties e tributos. Ao mesmo tempo, a realidade econômica do município continua relacionada aos desafios de logística, preservação ambiental, diversificação produtiva e melhoria dos serviços públicos.
Localização e características de Coari
Coari está situada na região central do Amazonas, em uma área de transição entre ambientes de terra firme, várzea, rios e lagos. A sede municipal fica próxima à margem do rio Solimões e do lago de Coari, elementos que influenciam a mobilidade, a alimentação, o comércio e o modo de vida da população.
Com 57.894,132 quilômetros quadrados de área territorial, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Coari é um município extenso e de baixa densidade demográfica. O Censo 2022 registrou 70.616 habitantes, enquanto o PIB per capita municipal chegou a R$ 55.138,76 em 2023. Esses números ajudam a dimensionar a importância econômica do município, mas não representam, sozinhos, a distribuição da renda ou as condições de vida de toda a população. (ibge.gov.br)
A geografia de Coari também impõe limitações. Em uma região marcada por grandes distâncias, rios e períodos de cheia e vazante, o transporte de pessoas, alimentos, equipamentos e mercadorias depende principalmente da navegação e da conexão aérea. Essa característica aumenta custos e torna a infraestrutura logística um dos fatores decisivos para o desenvolvimento local.
Origem histórica e formação do município
A história de Coari está ligada à presença de povos indígenas e à ocupação colonial do vale do Solimões. Diferentes grupos habitavam a região antes da chegada dos colonizadores, e o povoamento posterior ocorreu em torno de missões religiosas, rotas fluviais e atividades extrativistas.
Registros históricos associam a formação do primeiro núcleo de povoamento à atuação do jesuíta Samuel Fritz, ainda no período colonial. A origem do nome Coari é atribuída a línguas indígenas e aparece relacionada a diferentes interpretações, entre elas as expressões “rio do ouro” e “rio dos deuses”. Como ocorre em parte da história amazônica, há versões distintas para a etimologia e para os primeiros momentos da ocupação.
Em 1759, o povoado passou a ser identificado como Alvelos. Posteriormente, a sede foi transferida para a área próxima à foz do lago de Coari. A localidade foi elevada à condição de vila pela Lei Provincial nº 287, de 1º de maio de 1874, quando também foi criado o município. A cidade de Coari seria reconhecida oficialmente em 1932, conforme registros históricos reunidos por instituições públicas e entidades municipais. (seas.am.gov.br)
Durante boa parte de sua trajetória, a economia local esteve associada à pesca, à agricultura, ao extrativismo vegetal e ao comércio fluvial. A relação com os rios não era apenas uma característica geográfica: constituía a base da circulação, do abastecimento e da organização social das comunidades urbanas e rurais.
Floresta, rios e recursos naturais
As riquezas naturais de Coari não se limitam ao petróleo e ao gás natural. O município está inserido em um dos maiores sistemas fluviais do planeta, com rios, lagos, igarapés e áreas sujeitas à dinâmica anual das águas. Esses ambientes sustentam a pesca, a agricultura de subsistência, o transporte regional e diversas atividades econômicas realizadas por comunidades ribeirinhas.
A cobertura florestal também representa um patrimônio ambiental e econômico. A floresta oferece produtos extrativistas, abriga espécies animais e vegetais e presta serviços ambientais relacionados à manutenção da biodiversidade e dos ciclos da água. O uso desses recursos, no entanto, exige planejamento, controle ambiental e respeito às áreas protegidas e às comunidades que dependem diretamente do território.
Na produção rural, o município mantém atividades ligadas à agricultura familiar, à pesca e à criação de animais em diferentes escalas. A banana aparece entre os produtos associados à economia local, enquanto o pescado tem importância tanto para o consumo quanto para a comercialização. A produção enfrenta dificuldades típicas do interior amazônico, como o acesso irregular a mercados, a conservação dos alimentos e a dependência do transporte fluvial.
Nos últimos anos, também ganharam espaço propostas de bioeconomia, manejo sustentável e valorização dos conhecimentos tradicionais. Essas iniciativas buscam transformar a biodiversidade em oportunidade de renda sem depender exclusivamente da exploração de recursos não renováveis. Para que esse processo avance, são necessários pesquisa, assistência técnica, crédito, infraestrutura e mecanismos que garantam participação e retorno econômico às comunidades locais.
Urucu e a produção de petróleo e gás natural
A principal transformação econômica de Coari ocorreu com o desenvolvimento da Província Petrolífera de Urucu. O complexo está localizado na área do município e concentra instalações de exploração e produção operadas pela Petrobras. A região passou a ter papel central na matriz energética do Amazonas e na produção terrestre de petróleo e gás natural do país.
A exploração em Urucu modificou a posição de Coari na economia estadual. O município deixou de ser conhecido apenas por suas atividades tradicionais e passou a integrar uma cadeia que envolve perfuração de poços, processamento, manutenção, transporte, serviços especializados e arrecadação pública.
O petróleo produzido na região é transportado até Coari por dutos e, a partir do terminal localizado no município, segue por via fluvial para outras unidades da cadeia de abastecimento. O gás natural, por sua vez, ganhou importância com a implantação do sistema de transporte entre Urucu, Coari e Manaus.
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o projeto do Gasoduto Urucu-Coari-Manaus tem aproximadamente 662 quilômetros de extensão, incluindo o trecho entre Urucu e Coari e a ligação de Coari com Manaus. A infraestrutura foi criada para transportar o gás produzido na Bacia do Solimões e atender à demanda energética da capital e de municípios localizados ao longo do trajeto. (gov.br)
O papel do gasoduto Coari-Manaus
O gasoduto ampliou a importância de Coari como elo entre a área produtora e o principal mercado consumidor do Amazonas. Antes da expansão do sistema, o abastecimento de usinas termelétricas dependia em maior medida de combustíveis líquidos transportados por longas distâncias. Com o gás natural, parte da geração de energia passou a utilizar um combustível produzido dentro do próprio estado.
O sistema também contribuiu para a interiorização do fornecimento de gás natural. Relatórios do Governo do Amazonas registram o uso do combustível em usinas termelétricas de municípios como Coari, Anamã, Anori, Caapiranga e Codajás, além de Manaus. Isso demonstra que a atividade instalada em Coari tem efeitos que ultrapassam os limites municipais. (amazonas.am.gov.br)
O transporte por dutos ainda reduz a dependência de deslocamentos contínuos por rios para determinadas etapas da cadeia energética. Mesmo assim, o sistema exige manutenção, fiscalização, segurança operacional e monitoramento ambiental. A presença de uma infraestrutura de grande porte também demanda planejamento para evitar que os benefícios econômicos fiquem concentrados apenas na atividade extrativa.
Royalties, arrecadação e economia local
A produção de petróleo e gás gera receitas para a União, o estado e os municípios por meio de royalties, participações governamentais, impostos e pagamentos relacionados às atividades de exploração. Em Coari, esses recursos passaram a representar uma fonte importante de financiamento público e ajudaram a elevar o peso do município na economia amazonense.
A atividade petrolífera, porém, não elimina os desafios de gestão. Receitas ligadas à produção podem variar de acordo com volumes extraídos, preços, regras de distribuição e decisões de investimento. Por isso, a dependência de royalties exige planejamento de longo prazo, transparência e aplicação dos recursos em áreas capazes de melhorar a qualidade de vida e criar novas fontes de renda.
Dados do IBGE mostram que Coari registrou mais de R$ 723,5 milhões em receitas brutas realizadas em 2025 e despesas brutas empenhadas superiores a R$ 661 milhões. Os números indicam a dimensão do orçamento municipal, mas não permitem concluir, por si só, como os recursos foram distribuídos entre saúde, educação, infraestrutura, assistência social e demais áreas. (ibge.gov.br)
O desafio econômico de Coari é transformar a riqueza gerada pela exploração de recursos naturais em desenvolvimento permanente. Isso envolve fortalecer o comércio, qualificar trabalhadores, apoiar produtores rurais, melhorar a conectividade e estimular atividades compatíveis com a floresta e com a realidade dos rios.
Novos investimentos e perspectivas
O futuro da economia de Coari continua relacionado à produção de petróleo e gás, mas também depende da capacidade de diversificação. Em 2026, o Ministério de Minas e Energia informou a retomada de investimentos da Petrobras no Amazonas, com previsão de aportes superiores a R$ 2,8 bilhões e anúncio de R$ 2,5 bilhões para a perfuração de novos poços e a implantação de linhas no Polo de Urucu. (gov.br)
Esses investimentos podem ampliar a atividade econômica, gerar contratos e aumentar a demanda por serviços especializados. Ao mesmo tempo, projetos desse porte precisam ser acompanhados por medidas de proteção ambiental, transparência na aplicação das receitas e políticas de formação profissional para que a população local participe das oportunidades.
Outra frente de desenvolvimento está na bioeconomia. A valorização de produtos florestais, da pesca manejada, do turismo de natureza e de cadeias produtivas sustentáveis pode reduzir a dependência de uma única atividade. A Prefeitura de Coari também tem divulgado propostas relacionadas à bioeconomia, à conservação florestal e à criação de estruturas para apoiar a produção local. (prefeitura.coari.am.gov.br)
Importância de Coari para o Amazonas
Coari ocupa uma posição estratégica porque conecta três dimensões fundamentais do Amazonas: a produção de recursos naturais, a logística fluvial e a geração de energia. O município abriga a área produtora de Urucu, concentra estruturas de transporte e participa do abastecimento energético de Manaus e de outras cidades.
Sua importância, contudo, não deve ser medida apenas pelo volume de petróleo, gás ou arrecadação. Coari também representa a realidade de muitos municípios amazônicos que precisam conciliar economia, preservação ambiental, serviços públicos e grandes distâncias geográficas.
A história econômica de Coari mostra como a exploração de recursos naturais pode alterar rapidamente o papel de uma cidade dentro do estado. O próximo passo é garantir que essa riqueza seja convertida em educação, saúde, infraestrutura, geração de empregos e oportunidades duradouras. Com planejamento e diversificação, os recursos naturais do município podem sustentar não apenas a produção energética do Amazonas, mas também um modelo de desenvolvimento mais equilibrado para a população e para a floresta.





